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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A pena do meu Pai. Parte 4

A viagem ao Cáucaso, pela pena do meu Pai, que escreve muito melhor que a minha.
In: Jornal de Minde. Nov2012

É já ali…
ao dobrar da esquina


SINGULARIDADES DA ARMÉNIA
Na manhã de 11 de Julho, o 12º dia de viagem, e já com 7271 Kms andados, saí cedo da caravana improvisada. As melgas tinham-me azucrinado toda a noite e precisava de me coçar.
O dia anterior acabara mal. Pensávamos chegar a Yerevan, capital da Arménia, e descobrir um hotelzeco para tomar um bom banho. Da língua dos arménios não sabíamos nem uma palavra e os caracteres ninguém os entende, mas tínhamos esperança de encontrar o que se vê em muitos países – por debaixo do reclame na língua do país, a palavra Hotel, mais conhecida internacionalmente. 
Pois não senhor. O único “Hotel” que vimos era um daqueles que tem só um quarto e só uma cama…. e muitas figuras nuas pregadas na parede… O Ricardo, que entrou sozinho enquanto eu fiquei a guardar o carro, ainda quis saber o preço, mas a patroa perguntou se era só para uma hora. 
Com tanto percorrer ruas fez-se noite. Apercebemo-nos de que já estávamos a sair da cidade e que se via mal. Uma espreitadela, o carro não tinha médios – só um mínimo e máximos.
-Encosta aí, esquece o hotel e é aqui mesmo que ficamos. Uma noite não são noites! De manhã, depois de coçar as melgas e de uma higiene sumária, cuidámos de avaliar a situação. O GPS não funcionava desde que saíramos da Turquia e, com as voltas à noite, tínhamos perdido a orientação.  
Uns metros mais acima estava um motorista de táxi a lavar o carro.
-Boa ideia, com o mapa tentamos que ele perceba qual é a direcção que queremos seguir e que nos indique a melhor saída da cidade. Em último caso ele que vá à nossa frente!
O homem foi atencioso, percebeu rapidamente o nosso problema e fez-nos compreender que estávamos no sítio certo – era mesmo por ali que devíamos seguir.
-Que raio, é o homem que percebe o nosso mau inglês ou somos nós que falamos arménio sem saber? Talvez os leitores não saibam, mas o ponto mais conhecido da Arménia é… é o quê?
…é o Monte Ararat, é evidente, aquele aonde a Bíblia diz que encalhou a arca de Noé depois que as águas do dilúvio foram descendo…
…Vocês não acreditam nisto, pois não?
…pois olhem que o problema é muito mais complicado do que parece. Talvez eu tenha por aí espaço para escrever alguma coisa sobre essa matéria. Se não, fica para outra vez!
Para acabar com as dúvidas e termos a certeza de que o homem estava a falar a sério perguntámos:
-E o monte Ararat?
E não é que o homem nos faz entender que sigamos por aquela estrada, que, uns 500 metros mais adiante, já vemos o Monte Ararat?...
Meio convencidos, agradecemos, despedimo-nos como pudemos e o homem responde:
-Auf widersehen…
Aí, a nossa admiração foi ao rubro. Auf Widersehen é alemão e significa: Até à próxima! 
O homem certamente andou cá por estes lados e lá se apercebeu de que, mesmo não falando nós alemão, sempre devíamos entender melhor do que em arménio.
Umas centenas de metros mais adiante lá estava ao fundo o Monte Ararat. Tal qual como nas imagens que tínhamos visto na internet. O grande Ararat com os seus 5156 m de altura e, um pouco à esquerda, o pequeno Ararat que se fica pelos 3914. Estávamos longe, a uns bons 60 Kms, e não estava nos nossos planos chegarmos mais perto… mas não há dúvida de que é uma visão inconfundível. No meio do imenso planalto que é a Arménia destacam-se aqueles morros que, à distância a que estávamos, até parecem pequenos, coroados no pico pela brancura da neve eterna.
Encostámos a carrinha, saudámos o gigante e pedimos licença para o fotografar. Ele não respondeu nada. Ou só fala arménio ou então está tão farto de ser fotografado por máquinas do último modelo que nem dá pelos nossos equipamentos de bolso. Foi um fartote de fotografias, mas são todas iguais. Dum morro a 60 Kms de distância, com mais ou menos zoom, em automático ou manual, tudo o que se possa tentar não faz grande diferença.
Depois destas duas aventuras parecia que o dia estava ganho, mas muita coisa nos esperava ainda. Seguimos a rota que tínhamos planeado a caminho de Nagorno Karabach e ao princípio da tarde estávamos a chegar à capital do território que, além dos habitantes, ninguém conhece como país.
O nome significa qualquer coisa como Jardim montanhoso. Montanhoso é, de facto…jardim, bom, é muito verde, mas o caminho, subidas e descidas a pique, curvas e contracurvas a seguir umas às outras não dá para apreciar grande beleza. Mas a capital é bonita. Espreguiçando-se numa imensa colina voltada para o sol, avenidas largas à boa maneira soviética, árvores e jardins… claro que as traseiras escondem o que não se quer mostrar, mas aonde é que isso não acontece?
Deu para entender porque é que este povo rústico, montanheiro, perdido no cabo do mundo, num sítio aonde ninguém se atreve a chegar, se esforçou tanto para não ficar sujeito ao vizinho Azerbeijão aonde interesses alheios o tinham colocado desde os anos vinte do século passado. É que os habitantes são uma colónia de arménios que aqui se fixaram há um ror de séculos e em cada arménio se sente o orgulho de pertencer ao país que primeiro aceitou oficialmente o cristianismo, ainda antes do Imperador Constantino em Constantinopla. Segundo a tradição, o cristianismo chegou aqui pela palavra dos dois apóstolos S. Judas Tadeu e S. Bartolomeu. A nova religião seria oficialmente aceite em 301. Daí a igreja local intitular se Igreja Apostólica Arménia. Todos os vizinhos são muçulmanos, nomeadamente os azeris do Azerbeijão. Separados da Arménia já desde 1923 pela mão de Estaline, quando a URSS se dissolveu e o Azerbeijão reclamou a independência com base nas fronteiras estabelecidas por Estaline, estes arménios declararam não aceitar mais essa submissão ignóbil que os separava do seu povo, das suas raízes e da sua crença.
Pegaram em armas.
Um carro de combate estrategicamente colocado no alto dum morro lembra ainda hoje o esforço de guerra que fizeram até se negociar o cessar fogo. Nenhum país até hoje reconheceu a sua independência, nem sequer a Arménia, que, apesar de tudo, foi o único vizinho que manteve uma porta aberta para se poder entrar ou sair do território. Tal como os restantes arménios, emigram para todo o mundo à procura de trabalho. A passearem nas ruas da capital, num fim de tarde dum dia quente, são grupos e grupos de raparigas. Os rapazes seus amigos, ou irmãos ou namorados, estarão a pensar nelas, mas a muitos quilómetros de distância. Celebraram a sua independência com setecentos casamentos simultâneos. As fotos estão expostas num dos edifícios governamentais por onde passámos para nos carimbarem o documento que recebemos à entrada e entregámos à saída.

Estando fechada a fronteira do outro lado, através da qual poderíamos entrar no Azerbeijão, lá se foi a nossa hipótese de sair por aí, e, com mais uns 600 Km, seguir até Baku, nas margens do Mar Cáspio, a última fronteira dos sonhos do Ricardo.
-Deixa lá rapaz, algum dia terás tempo de cá voltar!
Regressámos à Arménia, mas logo adiante seguimos por outro caminho contando entrar no dia seguinte novamente na Geórgia e visitar a capital, Tbilisi! Tínhamos atingido o ponto mais longínquo da nossa viagem, estávamos a iniciar regresso.
Boa sorte “nagornocarabaquenses” e “auf widersehen” como se despediu o taxista na saída de Yerevan!
A Nogueira

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A pena do meu Pai. Parte 3


A viagem ao Cáucaso, pela pena do meu Pai, que escreve muito melhor que a minha.
In: Jornal de Minde. Out2012



É já ali
… ao dobrar da esquina

GUARDIÕES DA LEI

Fartos de pagar portagens já que, sem isso, a cancela não abria, ao terceiro dia chegámos
à Eslovénia. Não vimos cancelas, os carros ligeiros eram encaminhados para a pista da
esquerda através de sinais no chão e o caminho estava sempre aberto. Pela direita iam os
camiões que tinham cancela. Interessante, neste país os turismos não pagam portagem.
Mal tínhamos chegado a esta conclusão e já o país estava a acabar.
O guichet do costume… onde é que está a vinheta?
-Qual vinheta, qual carapuça?
Multados em trezentos Euros porque devíamos ter adquirido a vinheta ao entrar no país.
- Nós não sabíamos, ninguém nos avisou, lá donde a gente vem esses papelinhos servem
para outra coisa, além disso vocês são maçaricos na Comunidade Europeia, nós já cá
andamos desde o tempo dos nossos avós… onde é que está o papelinho, que nós vamos lá
comprar…
-Isso era 100 metros mais atrás, agora paga e não bufes!
O Ricardo usou as técnicas todas, lá conseguiu um desconto de 50%, pagando ali na hora,
em dinheirinho trocado.
A partir daí, passámos a andar atentos à vinheta. Isto até ao fim da Bulgária, porque,
depois disso, mais de mil quilómetros de Turquia, ora auto-estrada ora não, uma boa parte
estava em obras, nem pagámos nem ninguém nos incomodou.

Sem auto-estradas nem GPS, na Geórgia e na Arménia orientávamo-nos por mapas. Meia
volta, tínhamos de pedir informações, coisa complicada quando não se sabe nem uma
palavra da língua. Cruzamentos, hesitações, há um grupo de homens na beira da estrada…
-Alavérdi? – perguntamos nós, e apontamos a direcção da estrada.
Torceram o nariz!
… Alavérdi ? – volto a repetir…nada!
Até que um descobriu a pólvora…
… Alaverdí ?
Rimo-nos. Para nós era a mesma coisa. Por acaso até íamos bem.
O Ricardo contou que, uma vez, no Porto, onde esteve a trabalhar, parou um tipo que
conduzia um camião e perguntou o caminho para Lecsoés.
-Lecsoés?
O homem tinha a certeza, mostrou no mapa…
- Ah, pois, Leixões… é sempre em frente!
Mais adiante chegamos a um entroncamento…hesitamos…entramos para a esquerda,
damos pelo erro, meia volta ao volante e zás, estamos na direcção certa… e lá ao fundo
um guardião da lei já com a mão no ar.
-Tamos a contas…
Quando paramos ainda tento disfarçar...
-Alaverdí ? – e com a mão… é por aqui?
O tipo faz um sorriso bacana (- b, + s…) e até parece que falava a mesma língua que eu…
-É por aqui, sim…e a manobrazinha lá atrás?
O Ricardo sai do carro, põe-lhe a mão no ombro, puxa-o para a beira da estrada, eu fico a
ver a técnica.

Tenta amolecê-lo, o tipo é mais duro que um calhau, diz-lhe que já andamos há muito na
estrada…que não temos dinheiro, só estas duas notinhas vamos a caminho da fronteira, já
não podemos cambiar, e porque torna e porque deixa…mas tem uma magnífico souvenir
para lhe dar, trazido do mais longínquo ocidente, e tal e coisa…
Parecia um minderico a vender uma manta na feira de Montemor.
O homem começa a ficar mais manso, o Ricardo vem ao carro e lá vai um magnífico relógio
dos tais do chinês. O homem agarra o relógio, a princípio desconfiado, depois encantado...
o Ricardo vai para se despedir, mas o tipo segura-o pela manga:
… as duas notinhas também! (não valiam nem 10 cêntimos)
O Ricardo dá-lhe as notas meio contrariado, volta ao carro e arranca à pressa.
-Vais a fugir, enganaste o homem!
- Vou a fugir mas é dos colegas dele, antes que venham aí todos à cata de um relógio…

Dois dias depois, estamos na Abkásia.
Entramos no território sem saber ler nem escrever, graças a um papel que o Ricardo
conseguiu em Lisboa através de uma Agência de qualquer coisa. Escrito em russo e
cheio de carimbos. Nem sabíamos que aqui a moeda é o rublo. Sábado, casas de câmbio
fechadas, amanhã é domingo, nem cinco reis para comprar pão ou beber uma cerveja. Na
entrada dizem-nos que temos de ir à capital para obter um carimbo e depois sair por onde
entrámos. Mas só na 2ª feira, que amanhã é domingo, o Ministério está fechado…
E nós que queríamos era atravessar o país e sair pelo outro lado para a Rússia. O contrário
pode atrasar-nos uma boa meia dúzia de dias.
Já no dia seguinte, seguíamos para norte, fomos apanhados num limite de velocidade.
A técnica do costume, o Ricardo sai do carro, inicia as negociações, aproveito para ir aliviar
a bexiga atrás duns arbustos.
Quando regresso, há 3 ou 4 polícias de volta do Ricardo como se ele tivesse caído do céu –
só faltava dizerem: - Os deuses devem estar loucos!
…sou o pai daquele sucesso todo, envolvem-me na festa. A multa está perdoada, aquele
polícia que está ali já esteve em Tenerife e Marrocos...
- Ah pois, Marrocos, conhecemos muito bem, são nossos vizinhos, é porta com porta!
... e mexe num computador, enquanto os outros olham para a maquineta como um boi
para um palácio. Levou-nos para um gabinete, mandou-nos sentar, os outros espreitam do
corredor ou lá de fora pela janela.
…no computador, entra em contacto com uma namorada que fala inglês e trabalha numa
qualquer repartição, tem mais namoradas na rede de contactos. A rapariga teclava de
lá, o Ricardo teclava de cá, mas o polícia queria que a namorada fosse traduzindo para
russo, não fossem os estrangeiros combinar com ela algum esquema que lhe fizesse
nascer algum apetrecho na testa. Ela traduzia para russo mas ambos tinham que mudar no
computador os caracteres romanos para os cirílicos e vice-versa…
A rapariga perguntou que documentos é que tínhamos, o Ricardo lá lhe respondeu e ela
disse que, com esses documentos, não via razão para não nos deixarem sair para o lado
da Rússia. Sobre cambiar dinheiro – aí o meu amigo explica… há uma localidade com um
mercado, há lá quem cambie dinheiro mesmo ao Domingo.
Ficámos radiantes. O Polícia explicou, mas queria voltar a ver-nos quando voltássemos.
O mercado era maior que a feira de Serpa, o dinheiro cambiava-se nas padarias – vá lá a
gente saber porquê! Levaram-nos a uma onde havia três senhoras novas na cuscuvelhice.
Quando falámos em Portugal…Cristiano Ronaldo, Mourinho, toda a gente conhecia…uma
delas disse logo: Levem-me com vocês! (a gente até lhe fazia o jeitinho, mas o carro só
tinha dois lugares…)

Lá nos cambiaram o dinheiro e voltámos ao polícia que queria pôr-nos a par das suas
grandezas. Era a única pessoa na Abkásia que tinha um camelo de duas bossas. Não
percebi muito bem para que era o camelo...mas mostrou-nos no computador a foto dele
ao lado do camelo. Também tinha o penúltimo modelo dos Lamborghini (ou uma marca
dessas, da gente fina) e lá estava ele ao lado da máquina (acho que as fotos tinham sido
tiradas numa rua qualquer de Tenerife ou Marrocos, mas quem era eu para contradizer
um indivíduo que nasceu na Rússia, foi cidadão da Geórgia e é polícia da Abkásia… são
títulos a mais, a gente tem de ter respeitinho…)
…aproveitámos para lhe pedir o contacto, para o caso de virmos a ter algum problema
com polícias na Abkásia... ou na Rússia, ou em Tenerife ou em Marrocos, tudo sítios que
ele conhecia e onde tinha namoradas. Escreveu num papelinho… nós não entendíamos
nada do que lá estava escrito, mas, com o papelinho no bolso, parecia que tínhamos
abertas todas as portas deste mundo e arredores.
Mais uns quilómetros de estrada e estávamos na fronteira. Apresentamos os papéis, dão
uma vista de olhos e mandam-nos seguir.
…não posso acreditar…
Seguimos na bicha, mais adiante outro guichet…. isto já é Rússia…adeus Abkásia, qualquer
dia volto cá, a ver se o polícia já é dono do Mar Negro.

O polícia seguinte já foi na Hungria.
…alto, espadaúdo, a tresandar a autoridade, a meio quilómetro de distância já se via a
mão no ar.
Eu ainda não contei que a nossa carrinha teve uns problemas pelo caminho, e daí, às
tantas, ficámos sem médios. Buscas e mais buscas, fusíveis, ligações, cabos... resolvemos
o problema passando um cabo que ligava ao suporte de um dos médios, e vinha ter junto
aos pés do condutor. Ligava-se com uma ficha à tomada do isqueiro e funcionava… na
perfeição! – como dizia aquela do anúncio. Era o pendura que se encarregava da manobra
sempre que se fazia noite ou quando passávamos algum túnel.
…pois o polícia húngaro começou por meter a mão pelo vidro da janela do condutor
(pensei que o Ricardo ia levar um puxão de orelhas!) e ligou, com toda a sua autoridade, o
comando dos faróis. O Ricardo deu-me um toque na perna. Discretamente meti a ficha no
isqueiro enquanto o polícia ditava a sentença:
- Aqui é obrigatório andar com os faróis acesos. (mal ele sabia que fui eu que os acendi!)
O Ricardo conta muito bem esta história no seu blog “estoupraver.blogspot”:

“ Vais ter de me pagar 200 €, dizia ele em Húngaro! Eu respondi-lhe em Português - amigo, eu
como polícias como tu ao pequeno almoço há três semanas... depois em Inglês disse-lhe que
não tinha 200€ nem nada que se parecesse, contei-lhe a nossa viajem e a meio de enumerar
todos os países por onde havíamos passado nos últimos dias ele já deitava a conversa pelos
olhos. Aproveitei a deixa arranquei-lhe os meus documentos da mão e troquei-os por um
magnifico relógio de 3€. O bom homem riu-se, meteu o relógio ao bolso e disse-nos adeus, ali
mesmo nas barbas do Durão Barroso!”

O próximo polícia foi já em Portugal, mal entrámos em Vilar Formoso. O tipo queria à viva
força que o aparelho de soprar funcionasse, mas ou era do aparelho ou era do meu fôlego,
aquilo nem chus nem bus. Finalmente deixou descansar o aparelho e eu descansei também.
Quando me mandou soprar outra vez, parecia um vendaval. Lá acendeu o verde. Também,
o último toque em álcool fora um copo de cerveja pouco maior que um dedal, em
Espanha, uma hora antes.
-Façam boa viagem!

-Obrigadinhos a vossência, e até mais ver!
Têm nível estes polícias europeus, mas não chegam nem aos calcanhares do polícia
da Abkásia – conhecia Tenerife e Marrocos, manobrava um computador, tinha não sei
quantas namoradas, um camelo e um Lamborghini!
…e chamam àquilo um país arrasado pela guerra!


…é proibido tirar fotos a polícias, embaixadas, postos fronteiriços e coisas desse género.
Daí, esta crónica não tem fotos para exibir. Também não tinha espaço nesta página. Vou
colocar alguma tirada por lá, noutra página qualquer. Onde der mais jeito…

A Nogueira

Estamos numa das entradas de Sófia, a capital da Bulgária, a uns escassos 500 m da zona monumental da cidade. À nossa direita esta magnífica oficina de reparação de carroças…
Estes países, há vinte anos eram parte da União Soviética, depois independentes e agora já fazendo parte da Comunidade Europeia, ainda proporcionam imagens curiosas,
É o que se chama ter de andar depressa para acertar o passo!



domingo, 7 de outubro de 2012

A pena do meu Pai. Parte 2


A viagem ao Cáucaso, pela pena do meu Pai, que escreve muito melhor que a minha.
In: Jornal de Minde. Set2012



E já ali… ao dobrar da esquina

A ocasião faz o ladrão

Já lá vão uns bons anos, andávamos, a minha mulher e eu, a dar uma volta por Espanha. Um
dia hospedámo-nos numa terra cujo nome não recordo, mas sei que o Hostal era num rés do
chão e era terra de passagem de emigrantes.
Nessa altura, as Casas de Hóspedes espanholas tinham uma Bíblia em cima da mesa de
cabeceira, sugerindo ao cliente que aproveitasse os momentos de insónia para ler alguma
coisa que valesse a pena.
O que nos surpreendeu foi verificar que as Bíblias, apesar de utilizáveis, estavam presas
à parede por um cabo de aço. No dia seguinte perguntámos a razão. Notou-se que o
recepcionista ficou um bocado envergonhado perante a nossa pergunta, mas lá conseguimos
sacar a resposta. É que por ali os portugueses tinham fama de roubar dos quartos tudo o que
pudessem.
- Os últimos que cá estiveram até as mesas de cabeceira levaram!
- As mesas de cabeceira?
- Passaram-nas pela janela enquanto outros lá fora as arrecadavam.
Meio envergonhados, lá fomos saindo – mas tivemos o cuidado de dar tempo ao recepcionista
para mandar verificar se faltava alguma coisa no quarto.

Nesta viagem para Leste descobrimos que as estações de serviço ao longo das auto-estradas
na Europa são um espectáculo, nomeadamente em França. Grandes áreas, espaços enormes
para camiões TIR, muitas vezes áreas especiais para veículos de turismo, em alguns casos
parques de campismo anexos, tudo preparado para o viajante que, como nós, pode querer
dormir no camião, ou no carro ou na caravana. Já o abastecimento de combustível não existe
em todas as áreas. Comparando com Portugal, fica-se com a impressão de que lá fora as coisas
existem para servir o viajante – cá, existem para dar lucro a quem explora a área.
Mas há sítios onde se vão tomando medidas contra o vandalismo e os pequenos roubos.
Em Irun, ao entrar em França, a área tinha sido “reconvertida” há pouco tempo, suponho que
uma parte ainda nem estava inaugurada. Nas instalações sanitárias não há nada que possa
ser roubado. As torneiras são bicas cravadas na parede que funcionam através de sensor
incorporado. O rolo de papel higiénico está do outro lado da parede e puxa-se por um orifício.
Entre cada duas cabinas está uma porta fechada com a indicação “Arrumos”. É nítido que o
encarregado da limpeza guarda aí a vassoura, o balde, a esfregona e o papel higiénico, que
coloca de tal forma que pode ser puxado através dum orifício por quem estiver nas cabinas
anexas. Não há interruptores. Luzes e som ambiente (vivó luxo!) funcionam por sensores, e
as lâmpadas estão tão altas que ninguém lá consegue chegar. Os cabides estão cravados na
parede, não podem ser desmontados.
Melhor do que isto só as Bíblias dos espanhóis, presas com cabo de aço.

A nossa segunda tarde de viagem era ao longo da Cote d’Azur no sul de França.
Terras de gente fina que torna fino o lugar onde está - Saint Tropez, Cannes, Nice, Monte
Carlo, Sanremo.
E foi nestas terras de gente fina que acompanhámos a carrinha dum zé portuga que parece ter
aprendido a sobreviver no mundo em que se movia. O nome português e o reclame estavam
na traseira da carrinha. Qualquer coisa que se pode traduzir mais ou menos assim:
Zé Manel, ladrilhador
Não colo azulejos – APLICO ARTE.
- Aí grande tuga – se os queres agarrar, fala a linguagem deles!
A tarde a princípio ia divertida, mas lá para o fim complicou-se. Domingo de sol, toda a gente
foi para a praia e, ao fim da tarde, toda a gente queria estar em casa para ver a final do Euro.

Por nós, a praia estava posta de parte, e o nosso aplauso não fazia grande falta ao Euro. Mas
do engarrafamento não nos livrámos.
A certa altura havia uma zona de refúgio...vai disto! Enquanto descansamos, a onda passa, e
mais tarde seguimos caminho. Tanto mais que já havíamos passado o Mónaco e entrado na
Itália. Génova, que era o objectivo do dia, já se via lá ao fundo.
Um camião TIR português já tinha encostado antes de nós e fez-nos sinal. Dois dedos de
conversa, vocês para onde é que vão, e você donde é que é, o homem faz esta viagem todos
os fins de semana. Sai do norte de Portugal no sábado de manhã com o camião carregado de
pescado a caminho duma cidade do norte de Itália onde chega no Domingo à noite. (Não digo
o nome da cidade porque não sou denunciante). Aí esperam-no os que recebem o pescado e o
vão distribuir pelos supermercados da organização na cidade e arredores, de tal maneira que
esteja nos balcões na 2ª feira de manhã.
Quer dizer, o peixe vem lá de Marrocos ou da Mauritânia para os frigoríficos no norte de
Portugal e daí vai para a Itália. Só esta volta duplica o preço do pescado. É por isso que o
pescador ganha pouco e o consumidor paga muito.
- Afinal o gasóleo em Itália ainda é mais caro do que em França, arriscámos, para continuar a
conversa.
- Ah pois, na Itália é mais caro e na Eslovénia ainda mais (por acaso depois verificámos que
não) - mas vocês precisam de gasóleo?
-Não, temos meio depósito. Podíamos era ter atestado em França.
-Mas eu posso fornecer gasóleo mais barato do que em França...
Ficámos a saber que o camião TIR tem dois depósitos, perfazendo 1500 l, e que gasta 35 litros
por cada 100 Km. Em cada viagem destas gasta cerca de 1400 litros.
- Posso vender o gasóleo a 1,1 E. Quantos litros é que vocês querem?
- É um bom preço. Com uns 60 litros atestamos o depósito da carrinha e mais uma vasilha
suplente de 20 litros que trazemos.
Negócio feito. O homem trazia a mangueira que certamente já serviu em outras transações,
fez a transfega e recebeu o que se tinha combinado.
Enquanto discretamente se fez a operação foi dizendo que o patrão não dava por nada. Até
parece que este camião gasta mais que os outros...mas ele sabe bem que aos domingos no
verão há aqui sempre engarrafamentos...
- E no inverno há neve nos Pirinéus, acrescentei.
- Pois, pode sempre acontecer qualquer coisa em qualquer parte.
(entendi-te…)
Entretanto o engarrafamento já aliviara e até a final do Euro já tinha um golo. Deu para ver na
TV doutro camião ali ao lado.
O homem pôs o camião na estrada e seguiu o seu caminho. Já tinha avisado que estava
atrasado e só ia chegar lá pelas 3 h da manhã.
Cá por mim fiquei a pensar: se isto fosse a tribunal, eu era considerado cúmplice, receptador
e beneficiário do roubo...Mas como “quem rouba a ladrão tem cem anos de perdão”, podia
muito bem ter arrancado sem pagar o gasóleo e ficava mais que perdoado.
E vá lá a gente tentar conciliar a sabedoria dos juízes com a sabedoria do povo.

A Nogueira

Poupar no gasóleo, sempre que possível.
Esta reserva que o Ricardo está a usar custou na Rússia a 0,50€ por litro.
Se todo o gasóleo que gastámos fosse a este preço daria para ir à China e voltar!





















quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A pena do meu Pai.

A viagem ao Cáucaso, pela pena do meu Pai, que escreve muito melhor que a minha.
In: Jornal de Minde. Ago2012



É já ali...
ao dobrar a esquina

Um indivíduo não pode ser um cinzentão toda a vida.
Há momentos de extravasar, de se aventurar, de fazer umas asneiras, desde que elas não sejam irremediáveis. Caso contrário, até parece que se nasceu dentro de uma redoma e nunca se teve coragem de mandar a redoma às urtigas.
Era mais ou menos isto que eu pensava depois de, num momento de alguma irreflexão, ter dito ao meu filho – Vamos a isso! – e de ter começado a pensar que me estava a meter numa grande alhada. Já com ele a situação é diferente. Se lhe resta na memória ter acompanhado o pai em alguma aventura infantil, a verdade é que rapidamente abriu asas e furou sozinho muitos horizontes. Desde os mil buracos da nossa serra, à escalada aqui perto e mais longe, até chegar à travessia do Atlântico em barco à vela, com mais três amigos, desde Cabo Verde até às Caraíbas. Chegaram aos Barbados três semanas depois de terem partido. Os anos vão passando, o filho vai amadurecendo e o pai vai ficando velho, e foi agora que o filho entendeu que era boa altura de fazermos uma aventura em conjunto. Para os que não sabem, o meu filho é o Ricardo, e  assim me vou referir a ele daqui para a frente.

Em vez do cavalo do D. Quixote e da burra do Sancho Pança
… uma Berlingo um bocadinho artilhada



É como se vê! O Ricardo dividiu a caixa de carga da Berlingo em dois pisos. No rés do chão, cujo acesso é pela traseira ou levantando parte do soalho do 1º andar, transportam-se roupas, comestíveis e equipamentos – fogareiro camping-gás, reservatório de 20 l de água com torneira, reservatório para combustível de reserva, e trem de cozinha – alguidar com pratos, talheres, copos, detergente da loiça, esponja e pano de cozinha. Ainda no rés do chão, mas com acesso pela porta lateral, uma mala térmica com arrefecimento, mas que só funciona quando trabalha o motor do carro. Permite ter bebidas frescas e conservar alguns alimentos. O 1º andar cresce em comprimento chegando para a frente os assentos do carro e retirando a rede que separa o compartimento de carga. Dois colchões de espuma, sacos cama e cortinas que prendem por dentro com velcro, e temos uma área muito confortável para dormirem duas pessoas. De vez em quando dorme-se em hotel para poder tomar banho, apesar de levarmos um chuveiro de campismo.
No total dormimos 14 noites na carrinha e 6 em hotel. O Ricardo instalou ainda, no compartimento da frente, várias tomadas de 12 volts para o GPS, caixa frigorífica e outras finalidades. Deram um jeitão em certa altura. E ainda duas tomadas de 220 volts para carregar telemóveis e baterias das máquinas
fotográficas. Para além disso, passaportes, documentos de Vistos, mapas - o GPS não é acessível desde o fim da Turquia até entrar na Rússia – dinheiro e informação sobre a moeda de  cada país, valor de câmbio, blocos de apontamentos, mini-dicionário de russo. E ainda meia dúzia de relógios, daqueles que fazem um espectáculo no pulso, mas custam 3 € no Chinês. Eu um dia ainda lhes conto quanto renderam os relógios…

Aí vamos nós

No dia 30 de Junho partimos de Minde, alojados na carrinha, preparados para algumas eventualidades - nunca se está preparado para todas – com o plano de seguirmos para leste. Passar em grande velocidade Espanha, França, Itália, Islovénia, Croássia, Sérvia, Bulgária, e entrando na Turquia até Istambul.
Depois, na mesma direcção, em marcha mais lenta, tentando chegar à Geórgia, à Arménia, e a Nagorno Karabach. A seguir, rodando o Mar Negro pela Abekázia, Rússia e Crimeia. A partir daí, continuando pela Ucrânia, Moldávia, Roménia e Hungria. Depois, com o mínimo de paragens, pela Áustria, Alemanha e Suiça, de modo a fechar o circuito no sul da França, com regresso a casa.
Em termos de objectivos, rodear o Mar Negro, e dar uma olhadela às independências dessa zona nascidas da Perestroika. Na medida do possível visitar os povos que tiveram de pegar em armas por não aceitarem trocar a dependência da União Soviética pela dependência de um outro país com o qual não se identificavam, caso de Nagorno Karabach,ou simplesmente ficando prejudicados nos seus interesses – caso da Abekázia.

Dia a dia

O programa diário começa pelas 7 horas. 30/45 minutos para higiene matinal, arrumo da carrinha, e pequeno almoço - leite com chocolate, pão e manteiga (doce/presunto), e vamos para a estrada.
Conduz ora um, ora outro. Pelas 11h, uns minutos de intervalo e vai uma sandes com uma bebida. Nova etapa, novo repouso e mais uma sandes pelas 15h. Pelo por do sol, procura-se um sítio bom para pernoitar – numa área de serviço de estrada se houver, ou um pouco retirado da estrada, de preferência à beira dum rio, em sítio discreto mas de boa visibilidade. Uma vez escolhido o local, inspecção aos arredores, fogão aceso, um fio de azeite, umas rodelas de cebola, tomate, chouriço (ou linguiça ou salsicha) sai o refogado, água até ferver, arroz, massa ou esparguete. Ou um jantar de enlatados ou ainda uma sopa das que se compram desidratadas. Enquanto coze, as duas cadeiras de repouso, dois copos de vinho para acalmar, até que o nosso jantar está pronto. Depois do prato, uma fruta e um nescafé, se apetecer. Tudo feito à medida, para que não falte nem sobre. Não havendo TV nem entretenimento nocturno, arrumar a cozinha e vamos dormir, já que, quem cedo se deita, cedo acorda. E foi neste ritmo que fizemos 14.693 Km em 21 dias, estivemos em 21 países e atravessámos 47 fronteiras, contando as da Comunidade Europeia.

Curiosidades

-Nagorno Karabach é o único território do mundo que se considera independente, mas nenhum país o reconhece como tal. Resultado: só tem uma porta por onde se pode entrar e sair. Confronta com a Arménia e o Azerbeijão mas só está aberta a porta da Arménia. Entrámos, fomos até à capital – Stepanakerk – fomos muito bem tratados, mãe e filha, todas sorridentes porque não havia outro modo de nos entendermos,
serviram-nos no quarto do hotel um belíssimo pequeno almoço, e voltámos à Arménia sem darem pela nossa falta. O que nós queríamos era atravessar o território e sair pelo leste para o Azerbeijão mas a fronteira está fechada. -A Abekásia fez guerra para se separar da Geórgia e teve o apoio da Rússia. Mais
tarde foi negociado o cessar-fogo, o território considera-se independente e tem o reconhecimento da Rússia, mas não o da Geórgia, que continua a proceder como se a Abekásia fizesse parte do seu território.

Resultado: passámos da Geórgia para a Abekásia, devíamos ter voltado pela mesma fronteira para a Geórgia…mas não voltámos, e saímos pela fronteira do outro lado entrando na Rússia. Ainda agora na Geórgia devem andar à nossa procura. Cá por nós, podem continuar à procura … gostei de ver o país mas não espero voltar

Se esta crónica o divertiu, voltamos para a próxima!

A Nogueira

terça-feira, 14 de agosto de 2012

De cabo a rabo. Parte 3 a última.

Com festival Boom à mistura já esqueci metade das histórias, mas cá vai o resto...


Rússia - É um bocado difícil falar da Rússia porque para além de ser o maior país do mundo só fizemos aí uns 400km. Fiquei com muita vontade de conhecer mais e jurei a mim mesmo que quando lá voltar quero saber um pouco mais de russo. O meu léxico era de... aí umas dez palavras em russo, aumentei-o aí para umas quinze palavras e agora sei aí umas... uma palavra... mais ou menos. Já tinha tido esta sensação, a partir da Alemanha e mais a sul da Itália e até chegar à China, quem não sabe russo... anda a apanhar papéis... enfim!
Aqui acabaram-se as tensões da incerteza de conseguir rodear o Mar Negro e ter de voltar tudo para trás; na Rússia começou o nosso regresso a casa.
O que vimos: a primeira parte logo a seguir à Abkazia é uma mistura de Cote d`Azur com Quarteira, grande confusão de trânsito, de praias e veraneantes, hotéis e comércio relacionado com as praias. As marcas de terceiromundismo que nos acompanhavam desde a Turquia desapareceram, dando lugar a estradas em bom estado, passeios, passadeiras, estações de rádio, cobertura de gps, etc...
A segunda parte são campos de girassol a perder de vista. O terreno vai ficando mais plano gradualmente, desaparecem as montanhas do Cáucaso. Passamos ainda por várias gigantescas cidades portuárias, Gelendzhik e Novorossiysk. As pessoas com quem contactamos foram simpáticas e esforçaram-se sempre por comunicar connosco, ninguém fala inglês, mas nós é que devíamos falar russo, claro! Nas fronteiras foram também muito simpáticos apesar de serem muito meticulosos, perceber as nossas movimentações antes e depois do país, ver o numero do chassi da Berlingo a condizer com o registo automóvel, preencher um monte de papéis, etc. Fiquei muito satisfeito em entrar na Rússia por conta própria, sem agências de viagem e isso é um feito de viajante. Há muitas raparigas novas a trabalhar nas fronteiras, vestem uniforme da polícia com mini-saia e decotes generosos... verdadeiras Niquitas! (como a do Elton John). Uma Niquita de mini-saia no meio da estrada a fazer stop à Berlingo... uma verdadeira fantasia sexual. Lol.
Passar para a Crimeira foi também um épico. Em primeiro lugar não sabiamos a sério se havia ou não ferrys para fazer a travessia, a única coisa que tinha visto era umas fotos no Google Earth antes de ir viajar. Fomos à aventura. Quando lá chegamos, andamos um bocado perdidos sem perceber se seria possível passar ou não, se não conseguissemos passar teríamos de rodear todo o mar de Azov, no mínimo um dia mais de viagem. Levou um bom bocado até nos orientarmos, mas levou muito mais até embarcarmos... 7 horas para entrar no ferry! Era pequeno e havia muita gente, até foi uma tarde bem passada a falar ou a tentar falar com as pessoas que ali estavam. Embarcamos ao fim da tarde com um bonito pôr do sol. Vinte minutos depois estávamos do outro lado a ser devorados pelos mosquitos da Ucrânia.
Fronteira Abkazia Rússia.

Ucrânia - Decididamente as montanhas ficaram lá para trás, acabou a vegetação luxuriante e as planícies são a perder de vista. A Ucrânia faz jus ao seu antigo nome de celeiro da URSS. Campos agrícolas sem fim.
Há muitos mais carros ocidentais do que há uns anos atrás, mas as pessoas continuam a pé com um saco de plástico na mão; no fim de contas continuam ucranianos.
Em Mykolaiev, uma enorme cidade do Sul, paro o carro num vermelho e ouço uma voz - Ei português! Vais para Odessa? Era o motorista do autocarro ao lado. O sinal passa a verde e o autocarro desaparece numa barulhenta nuvem de fumo. Lá subiu na vida o ucra, montava ferro nas obras em Portugal, agora é motorista na sua terra - boa sorte amigo! Eu também vou para a minha terra...




Moldávia - A Ucrânia faz fronteira com a Roménia na zona do delta do Danúbio, mas não é possível passar por lá, é um rio que divide os dois países e não existem pontes. Assim, tivemos de passar pela Moldávia, entrar no país, fazer 49km e voltar a sair. Aparentemente uma horita deveria chegar, não fossem as normais borucracias alfandegárias. Três horas para para entrar e outras três para sair, fazer um seguro para o carro para percorrer 49km, pagar as taxas alfandegárias, revistar a Berlingo e os documentos por todos os guardas presentes e à vez... enfim o habitual! O demorado das operações fez com que entrássemos já de noite no país, de maneira que paramos uns quilómetros depois da fronteira, estacionamos a Berlingo debaixo de umas enormes nogueiras e preparamos o habitual arroz do jantar. No outro dia fomos acordados por um enorme rebanho de ovelhas e cabras que passavam junto à carrinha, à nossa volta uma Moldávia do mais rural que tínhamos apanhado até agora por todos os países que já tínhamos atravessado. Como uma viagem no tempo percorremos os poucos quilómetros até a Roménia. Foram os quilómetros mais fotografados de toda a viagem!
Renovados de paciência, chegamos cheios de moral à última fronteira antes dos Chegans da União Europeia. Mais três horitas e aí estávamos nós a caminho do centro da Europa. Não sem antes termos o último e mais incrível episódio de xicoespertismo da viagem, como uma despedida. Estávamos parados na fila para passar a fronteira, haviam aí uns quatro carros à nossa frente e outros tantos atrás. Passados aí uns quarenta minutos de estarmos parados, abre-se a cancela e os carros começam a entrar. O artista que estava a trás de mim decide que tinha que passar à minha frente, mete as rodas do carro a patinar e passa-me pela esquerda; salta-me a tampa e meto a Berlingo a patinar, rodas na berma e passo-o pela direita, os carros não batem por escassos centímetros, ele cede. No instante seguinte repete a proeza, eu repito a minha e volto a ganhar, um camião em sentido contrário impede o xicoesperto local de conseguir o primeiro lugar na pulp position, a minha mão sai fora da janela e lança ao espaço um grande avião com o dedo do meio. Eu também ganhei o diploma de xicoesperto!
Mais à frente passamos mais uma hora à espera, mas desta vez sob o olhar dos guardas. O artista de trás passava por mim na dança dos guichés e fazia-me peitos e eu fazia-lhe o mesmo (em Roma sê Romano).



International road.


O único país onde vi carroças com rodas destas, sem pneus e jantes de automóvel.


O carro do xicoesperto.

Roménia - É um país gigantesco onde embatem dois mundos, os super desenvolvidos e os que vão a caminho disso... Há obras de auto-estradas por todo o lado mas nenhuma está pronta, de maneira que atravessar o país é um tormento de estradas estreitas e camiões largos.
Paramos em Bucareste e seguimos viagem para a Transilvânia, dormimos numa estância de inverno por 25€, num hotel novinho, todo em madeira, estilo chalé dos Alpes. O hotel estava por nossa conta e deram-nos várias chaves de quartos para escolhermos o que mais gostássemos. Os donos do hotel eram muito simpáticos e já tinham estado em Portugal em turismo. À noite comemos o melhor bife de toda a viagem num restaurante todo cool cheio de Romenas.
Passamos ao dito castelo do Drácula - que é uma grande banhada - mas a região é muito bonita, segundo consta, o conde Vlade Tepes (o empalador) nunca saiu da zona de Bucareste, nunca esteve por estes lados, até porque esta zona pertencia ao império Austro-Húngaro. Mas a região merece a visita pelas belas paisagens alpinas.

Central Bucareste.

O castelo do Drácula.

Rostov no sopé do castelo.


Hungria - Auto-estrada até Torres Novas, começamos a acreditar que a carrinha chegaria a casa apesar das mazelas, a embraiagem estava a aguentar-se, o problema agora era na direção, desde a Rússia que fazia cada vez mais barulho a virar...
Andamos meia dúzia de quilómetros e no final de uma enorme reta um polícia gordo põe-se no meio da estrada e manda-nos parar... à distância a que ele nos mandou parar fez-me pensar em radar, os radares são uma chatice porque eles começam logo a dizer que como está gravado não podem perdoar a multa. Encostamos o carro e o gordo chega-se ao pé de nós, a primeira coisa que faz é meter a mão pelo vidro do carro e rodar a manete das luzes... comecei-me logo a rir, (tá claro que o amigo policia não anda com atenção a este blog, senão saberia que as luzes da Berlingo não se acendem ali) dei uma cotovelada ao meu pai para ele enfiar a ficha no isqueiro e acender as luzes do carro. O polícia lá se explicou, - aqui é obrigatório circular com os médios ligados e por isso vais ter de me pagar 200€. Dizia ele em Húngaro! Eu respondi-lhe em Português - amigo, eu como polícias como tu ao pequeno almoço há três semanas... depois em Inglês disse-lhe que não tinha 200€ nem nada que se parecesse, contei-lhe a nossa viajem e a meio de enumerar todos os países por onde havíamos passado nos últimos dias ele já deitava a conversa pelos olhos. Aproveitei a deixa arranquei-lhe os meus documentos da mão e troquei-os por um magnifico relógio de 3€. O bom homem riu-se, meteu o relógio ao bolso e disse-nos adeus, ali mesmo nas barbas do Durão Barroso!
Jantamos em Budapeste e dormimos nas imediações.

Buda de um lado e Peste do outro, o Danúbio no meio.


Aqui as carroças são só para turistas.


Áustria - Paramos em Viena e demos uma volta no centro. Nunca tinha estado na Áustria, o último país novo para mim nesta viagem, acho que o quadrajéssimo primeiro que visito.
Uma curiosidade: o centro de Viena é cheio de monumentos e de comércio, as melhores marcas têm aí uma loja, mas a melhor loja de todas, a mais bem posicionada e mais vistosa, não é a Dior nem a Chanel ou a Raymond Weil, não vende roupas ou jóias ou carros, a melhor loja vende café, é a loja da Nespresso, vende cápsulas e máquinas de café! Que negócio mais bem (re)inventado. Nas montras tinha umas fotografias do George Clooney, que é bastante parecido comigo só que mais velho...☺


Centro de Viena.
Os locais usam a gravata condizer com a esplanada onde vão beber o café da manhã.

Patek Philippe relógios a partir de 30 000€, óptimos para subornar polícias ☺


Alemanha - Nada a declarar... continua cheia de alemães com tatuagens e carros tuning e essas cenas...

Suíça -

O pelintra a poupar uns cobres com gasóleo da Rússia a 0.50€/l.


Conclusão - A viagem foi um espectáculo apesar de cansativa. Viajamos muitos quilómetros, quase 15 000, o que só foi possível com esforço e alguma disciplina. Com três semanas normalmente só se vai até à Suíça, coisa que já fiz várias vezes. Adorei chegar até às portas da Ásia, o que me abre perspectivas para outras viagens, principalmente quando chegamos a Erzurum, no fim da Turquia, e estivemos tão próximo do Irão.
Vimos a Europa em mudança, principalmente alguns países do leste por onde já tinha passado há alguns anos, como a Eslovénia, Croácia, Sérvia, Ucrânia e Moldávia e outros que adorei conhecer como a Arménia, a Turquia, a Rússia e sítios off the beaten track como Karabach ou a Abcazia.
A Berlingo chegou toda esgaçada... ainda não fui buscar a conta ao mecânico, até tenho medo... Um toque numa pedra por baixo, junto ao cárter fez deslocar um tubo de óleo da direção e provocou uma fuga no sistema, daí o barulho ao virar; chegou cá sem óleo e com o sistema a gripar, teve de ser substituído. Sem médios, com as jantes todas empenadas e com a porta e painéis laterais todos amolgados e riscados...
14 693 km percorridos, 785 litros de gasóleo que custaram 930€, uma média de 1.18€/litro e mais 283€ de portagens. 25 países dos quais 4 foram repetidos, 14 fronteiras das chatas... 13 moedas diferentes.
Mas o que fica desta viagem foi a companhia do meu pai, o seu entusiasmo, a sua capacidade de se espantar com as coisas diferentes, a sua cultura geral de 71 anos de idade, o seu espírito simples e desenrascado, nunca refila, come o que há, e dorme onde calha. Adorei, Sr. Agostinho!


Papá, não há pai p'ra ti ☺



estoupraver...

domingo, 29 de julho de 2012

De cabo a rabo. Parte 2


Nagorno Karabach 

Breve resenha histórica do conflito.

Antes de estalar a guerra em Karabach, Arménios e Azeris (habitantes do Azerbaijão) conviviam em paz nos dois territórios. Os primeiros desencontros destas duas culturas dão-se nos inícios do Séc. XIX com a chegada de ideologia nacionalista vinda da Europa. Em 1905 as verdadeiras tensões étnicas dão-se em Baku (capital do Azerbaijão), Arménios e Azeris opõem-se em verdadeiras batalhas campais.
Em 1918, aproveitando a confusão da Rússia pós revolução Bolchevique de Outubro de 1917, Arménia, Geórgia e Azerbaijão declaram idependência. Imediatamente após, Arménia e Azerbaijão lançam-se em duras batalhas para controlar territórios como Nakchivão, Zangezur e Karabach. Nakchivão foi ganha por Azeris e Zangezur e Karabach por Arménios.
Quando a Rússia se volta a organizar, regressa ao Cáucaso. Numa primeira instância, respeita as fronteiras de Karabach, mas numa forma de retaliação a protestos anti-bolchevique em Yerevan, a Rússia inclui Nagorno Karabach no território Azeri, castigando os Arménios, mas a população de Karabach continua maioritariamente Armena.
Durante os seguintes 70 anos de URSS as relações entre os governos das duas repúblicas seguiu estável sob o controlo de Moscovo.
No entanto, os Arménios nunca esqueceram o seu território. Esperaram durante decénios, houve movimentos clandestinos pró unificação durante décadas.
Em 1988, antes da queda do muro, na praça Lenine de Stepanakert (capital de Karabach), um pequeno grupo de Arménios residentes manifestou-se pela unificação com a Arménia. Um dia mais tarde, um milhão de pessoas toma as ruas de Yerevan (capital da Arménia) para pedir a reunificação e obtêm a aprovação do Soviete da Arménia; Moscovo é apanhado de surpresa e o que parece ser um problema menor rapidamente acende o rastilho.
A mecha do conflito acende-se definitivamente na cidade de Sumgayit (Azerbeijão)  com a chegada de Azeris expulsos de Meghi (Arménia) e Kafan (Karabach) por Arménios. A população local, exaltada com os relatos dos compatriotas que chegavam, iniciou um massacre aos Arménios, sem que as autoridades locais interviessem. 14 000 Arménios fugiram de Sumgayit  e o mesmo começou a acontecer noutras cidades. Os acontecimentos foram-se precipitando e no fim do mesmo ano todos os 200 000 Azeris que viviam na Arménia foram perseguidos e expulsos.
Com a queda do muro, a Arménia ficou sozinha no conflito, a Turquia fechou fronteiras que continuam fechadas e a Geórgia teve também a sua guerra civil; apenas o comércio com o Irão tornou possível suportar os duros invernos da Arménia.
Em 1993 os guerrilheiros Arménios aproveitando a destabilizada situação política no Azerbaijão saem das fronteiras de karabach e ocupam as aldeias Azeris que cercavam Karabach. A ONU apressou-se a apresentar uma resolução que pedia o fim da contenda e a retirada das tropas Armenas dos territórios ocupados, mas os guerrilheiros prosseguiram a sua ofensiva e provocaram o maior êxodo de refugiados depois da II Guerra Mundial. Em Maio de 1994, depois da fase mais sangrenta do conflito, os dois exércitos, exaustos, assinaram um cessar fogo que ainda hoje é a única coisa que existe na esperança que um dia chegue um acordo de Paz. Nos mapas, as linhas de fronteira de karabach estão referenciadas como linha de cessar fogo de 1994. Pelas Nações Unidas Karabach continua a ser parte do Azerbaijão. Existe um milhão de refugidos à espera de voltar ao seu território. Perderam-se 16 000 almas no conflito e as tenções continuam ainda muito elevadas.


A nossa impressão do que vimos: um país jovem e com garra, nada de marcas de guerra. No geral muito parecido com a Arménia. A melhor pizzaria da viagem e um dos melhores hotéis onde ficamos. Às 8 da manhã toca o telefone do quarto de hotel, atendo –Hello! Respondem – Dobre utre (bom dia em russo, a única coisa que entendi) blablabla, plim. Desligam. Passados dois minutos batem à porta e entram-nos no quarto duas matrioskas com tabuleiros na mão com o pequeno-almoço de iguarias... ☺ bela surpresa!
Da fronteira mandaram-nos diretamente para o ministério dos negócios estrangeiros na avenida principal de Stepanakert. Aí preenchemos um monte de papéis e juramos a pés juntos que não eramos espiões Azeris e que só ali estávamos para comer uns Kachapurris (óptimos pasteis locais), lol. Recebemos um bonito visto no passaporte como se de um país a sério se tratasse, recebemos também a triste notícia que já estávamos à espera que teríamos de sair por onde entramos, pela única fronteira do país que é com a Arménia, todas as outras com o Azerbaijão estavam fechadas pelo que tivemos de fazer o mesmo caminho de volta deitando por terra a ideia de visitar o Azerbaijão (ficará para uma próxima…). No hall de entrada do ministério havia uma exposição de fotos: forças em parada… carros de combate… e um casamento com 700 noivos uns dias depois do cessar fogo ☺!
Stepanakert.

Stepanakert.

Entrada de Nagorno-Karabach.

























Republica da Abkazia - Ao contrário de Karabach, aqui as marcas de guerra são bem visíveis e de arrepiar... Entramos no território era já fim de tarde, íamos numa estrada depois de passar uma pequena terriola Georgiana e quase inesperadamente surge uma cancela na estrada; «deve ser isto a fronteira». Havia uma pequena casinha com militares, dirigimo-nos lá sem saber bem se estavamos no sítio certo, não havia bandeiras nem os edifícios habituais das fronteiras, para a Georgia a Abkazia continua a ser parte do seu território, mas assim uma espécie de local ao fundo do quintal onde não se vai, é nosso mas não se pode lá ir... havia por ali uns dois ou três táxis que largavam passageiros que seguiam a pé para lá da cancela. Ao ver-nos, os militares fizeram imediatamente sinal para voltarmos para trás, não podíamos passar daquele ponto. Eu e o meu pai estávamos tensos, esta era a parte da viagem mais complicada, sabíamos perfeitamente que se não passassemos aquela cancela teríamos a volta ao mar Negro comprometida e teríamos de voltar tudo para trás pelo mesmo caminho. Valeu-nos o trabalho de casa, a carta que o ministério dos négocios estrangeiros da Abkazia me tinha escrito com a autorização de entrada, a nós e à Berlingo e que tinha sido pedida por mail bastante tempo antes da nossa partida.
Era sexta feira, na segunda teríamos de ir ao ministério na capital carimbar o passaporte para poder deixar o território. Explicamos que não voltaríamos a passar naquele ponto, que íamos seguir para a Rússia... isso não é possível, diziam os militares.. tem de sair por onde entraram...
Passamos a cancela, mais à frente uma barreira militar no meio da estrada, um jovem militar de camuflado, capacete e kalasnikov atrás de sacos de areia. Passei muito devagar com o carro, acenei-lhe com a mão mas ele não esboçou qualquer gesto... passamos uma ponte e mais à frente outra barreira militar. Aqui estavam todos à nossa espera, tinham um ar mais operacional, revolucionário! Saí do carro, mostrei os meus papéis e disse que ía para a capital Sokumi, tendo especial cuidado em não pronunciar o i no fim da palavra Sokumi à moda da Abkazia, como tinha lido algures.
Os primeiros quilómetros de Abekazia são um tormento, a estrada está completamente destruída, as poucas casas que estão de pé têm um aspeto miserável, as pessoas parecem fantasmas, talvez fosse sugestão nossa, mas a morte parecia pairar por ali. Anoiteceu e paramos a carrinha ao lado daquilo que nos pareceu um café de borda de estrada. Por gestos explicamos ao homem que ali estava que ia-mos ali dormir, ele encolheu os ombros, passado um bocado veio bater-nos na porta da carrinha a convidar para irmos dormir na casa dele... agradecemos e 'tá claro que já não nos mexemos dali. Estávamos exaustos. No outro dia o café afinal era uma padaria, com pão quente, muito bom cheirinho,  comemos ali e o padeiro mostrou-nos a padaria; o forno era um buraco no chão, no chão do buraco havia umas potentíssimas resistências elétricas que geravam o calor. O pão era tipo bolacha e era colado nas paredes verticais do forno. Muito engraçado, o melhor de tudo era o quadro elétrico construído pelo próprio padeiro, com uns fusíveis feitos de arame com 5mm de diâmetro!... deu-nos também um saco de pêssegos e fizemo-nos à estrada. A estrada melhorou, a nossa disposição também e o cenário já não nos pareceu tão dantesco como na véspera.
Pouco depois tivemos um episódio surreal. O carro estava na reserva, o dinheiro da Geórgia aqui já não valia nada e euros era coisa que nunca tinham visto, era sábado e se não encontrassemos cambio entretanto, só na segunda. Fomos parando nas bombas de gasolina mas só queriam Rublos da Rússia. Nisto, um polícia manda-me parar, tinha um radar e apanhou-me a 58km/h num troço de 40km/h. Entretanto aparece o polícia mais graduado e fica doido ao ver que não éramos dali, estrangeiros! o homem ficou doido de alegria com o habitual «Portugal, Cristiano Ronaldo, Mourinho, etc, etc.». Levou-nos para dentro da esquadra, ali ao lado, tinha em cima da mesa o portátil ligado e um monte de miúdas no chat da net, como ele não falava uma palavra de inglês, pôs-me a teclar com uma amiga que sabia inglês... foi só rir, eu escrevia em inglês e a amiga respondia em inglês para mim e em russo para ele, ele ia alternando a configuração do teclado para passar de letras cirlicas para as nossas, que comédia!! a moça do outro lado disse-me onde ir cambiar dinheiro - «Vais ao mercado e falas com a mulher que vende os sapatos, ela cambia-te os euros...» - e foi o que fizemos, por gestos encontramos o mercado, a vendedora de sapatos e cambiamos euros. Na loja de sapatos fomos uma sensação para as clientes que já queriam vir connosco para Portugal. Depois voltamos ao nosso amigo polícia, mostrou-nos as fotos da mãe, do carro, da casa, e o melhor de tudo, as fotos do camelo que ele tinha, ele tinha um camelo! o único camelo da Abkazia, dizia ele, um camelo com duas bossas... a foto dele e do camelo, os dois com cara de camelo! A amiga do chat disse-nos que não íamos ter problema nenhum na fronteira da Rússia uma vez que tínhamos visto. Antes de me despedir do polícia pedi-lhe o número de telefone num papelinho, podia vir a dar jeito.
Não tivemos mais peripécias na Abkazia, saimos sem o carimbo do ministério e na fronteira do norte com a Rússia nem sequer tivemos de parar, nem olharam para a matrícula da Berlingo. Em teoria continuamos na Geórgia porque não tinhamos carimbo de saída no passaporte. Já entrar na Rússia foi outra conversa.
(Continua)

A ponte na entrada da Abkazia.


À porta da padaria.


Dentro do Parlamento de Sokumi.




Mar Negro em Sokumi.