segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Até à Berlenga num quatro vinte

Em 2003 fui a até à Berlenga com o Rui, esse mesmo que fez equipa comigo até ao Mali! O que seria um normal fim de semana naquela época, ficou nas nossas memórias como uma aventura inesquecível. Tínhamos comprado um 420 (o barco de vela ligeira, com 4,20m de comprido) a meias. Pusemos um pouco de parte o sonho de ter um grande veleiro para dar a volta ao mundo e compramos o que o nosso dinheiro permitiu. O 420 era uma relíquia; tinha 20 anos, um casco muito sólido, mas metia água nas tampas dos flutuadores e pelo patilhão as velas estavam utilizáveis, apesar do desgaste. O alumínio do mastro mostrava a sua idade... uns tempos mais tarde o mastro partiu-se ao largo de Mil Fontes e o barco teve de ser rebocado pelos pescadores.


O atrelado tinha sido "arranjado" numa marina, num acto de desespero... pelo caminho rebentou um pneu e lá tivemos que inventar chaves de rodas que não tínhamos e procurar quem nos arranjasse o pneu. Nada que demovesse a nossa vontade férrea de irmos à Berlenga no nosso maravilhoso veleiro.

Aparelhamos o barco numa praia em Peniche.



Havia um pouco de nortada, de maneira que até à Berlenga foi um tirinho, os dois sentados no mesmo bordo do barco e sempre a ripar até à ilha.
Quando chegamos, amarramos o barco a uma bóia e fomos fazer o reconhecimento do local. Junto às casas não havia grande local para dormir, de maneira que tivemos que mudar de sítio. O barco é que já estava armado em submarino, cheio de água, já mal flutuava, mas lá baldeamos a água e continuamos. A Berlenga não é fácil... todas as bóias têm dono, o cais é para o barco dos passageiros, pescadores, escuteiros e  as gaivotas mandam no resto. Sítio para clandestinos fora dos circuitos turísticos não há!



Lá encontramos um sítio menos mal... apesar do corrupio de transeuntes.



Sopinha para o jantar.






Passamos a noite possível... entre turistas barulhentos e pescadores mal humorados... no outro dia fomos em busca da paz desejada... Farilhões, os calhaus que ficam por trás da Berlenga. Aqui sim, reina a natureza, a ilha não tem nada, só um pequeno farol alimentado com painéis solares. Aqui reinam as cagarras e os percebes.






Lindo!

Pois, ficas melhor de barrete!
Por questões de segurança, removo a nossa identidade.

É que enchemos a barriga com os melhores percebes do mundo! e cuja apanha é ilegal, claro está...
Nunca tinha visto tantos e tão grandes ☺

Vais preso mas de barriga cheia...

Muita rocha carregada de percebes.
Com o anoitecer, a passarada faz um barulho incrível, tipo Parque Jurássico, a atmosfera fica mágica! e a noite em que apareceram todas as estrelas do firmamento deu-nos a mais saborosa sensação de liberdade! Há locais verdadeiramente fantásticos e este é sem dúvida um deles.
No outro dia regressamos a Peniche, o vento tinha caído... o que para cá fizemos em menos de uma hora, para lá demorou quatro... 




O 420 ainda proporcionou muitas aventuras. Uma vez estivemos acampados na ilha do Pessegueiro, quase uma semana a pescar.  
Outra vez o Rui saiu a velejar sozinho com o barco, coisa que fazia com frequência. Estava ao largo de Sines, perto do molhe Norte, era já fim de tarde quando começou a regressar ao clube náutico, exagerou-se com o leme a dar o bordo e virou o barco, coisa que acontecia também com frequência e que duas pessoas resolviam com rapidez e pouco esforço. Já para uma pessoa sozinha não é assim tão fácil...  Tentou uma ou duas vezes pôr o barco direito e não conseguiu. A princípio não deu muita importância ao caso porque estava convencido que era uma questão de persistência, faz-se força no patilhão e puxa-se por um cabo preso ao topo do mastro e o barco fica direito... o problema é que começou a entrar água dentro dos flutuadores e o barco começou a afundar. Quando se apercebe disto, o Rui entra em desespero, o mar em volta estava super sereno... não se avistava vivalma... rapidamente avalia as várias hipóteses, nadar para terra, nadar para a bóia de espera dos navios, afundar juntamente com a embarcação como um verdadeiro capitão. Exclui imediatamente a terceira hipótese, porque tinha mais que fazer do que morrer afogado! a primeira hipótese foi também afastada depois de muito ponderar, terra estava realmente longe... restava-lhe a bóia que estava muito mais perto, a ideia de passar uma noite gélida em cima da bóia não era muito agradável...mas sobreviveria...
A bóia de Sines.
Resignado e movido pelo espírito de sobrevivência, põe-se a nadar. Passados vinte minutos já quase a chegar à bóia, passa-lhe à frente um barco de pesca! o Rui grita e esbraceja mas o barquinho prossegue a sua rota, imutável. Porém, no último instante, sai um homem da cabine que vem verter águas à ré e vê o náufrago! O barco dá meia volta e recupera o Rui roxo de frio... a bordo náufrago e pescadores, todos se emocionam. Mas o choque passa rápido e o Rui já só pensa em resgatar o 420 antes que as profundezas o reclamassem. 
Voltou a vestir o fato de neopreno e com a ajuda dos pescadores endireitou o barco, abriu as boeiras e as tampas dos flutuadores e veio sentado no barco a reboque. Perto da marina os pescadores soltaram o cabo de reboque e o barco deslizou suavemente até ao molhe de atraque, como se nada tivesse acontecido, enquanto o último raio de sol desaparecia no horizonte...
Passado um bocado ligou-me a chorar e contou-me a história. «Caneco! vou brindar a isso, ainda bem que estás vivo, pá!» e abri uma garrafa de vinho que tinha guardada para as ocasiões em que os amigos sobrevivem!
Moral da história... não sei qual é a moral da história...
Depois do incidente, o 420 foi substituído por um modelo mais recente. Descansa esquecido nas profundezas obscuras de um armazém, mas um dia ainda o vou recuperar e voltará a sulcar os oceanos, intrépido em busca de aventura ☺.