segunda-feira, 1 de julho de 2013

Ultra trail da Serra da Freita

No sábado foi a vez de ir à Freita para as bandas de Arouca.

"A serra da Freita faz parte do maciço da Serra da Gralheira, juntamente com a serra da Arada e do Arestal. É uma região de grandes contrastes, de relevo áspero e imponente. Ao austero planalto, onde só florescem os matos rasteiros, contrapõem-se os profundos vales encaixados, atapetados de espesso arvoredo, por entre o qual correm rios rebeldes e tumultuosos. As pequenas aldeias que salpicam a serra, ora se escondem nos recônditos das rugas da montanha, ora se empoleiram a meia encosta, em airosos anfiteatros rodeados de socalcos laboriosamente talhados ao longo dos tempos. O casario de pedra confunde-se com o próprio monte, num perfeito mimetismo que a construção em pedra lhes dá. Apenas algumas casas pontuam pela diferença, destacando-se pela cor berrante das paredes ou por ostentarem uma arquitectura desajustada, fruto de novos tempos e gostos de outras paragens."
in: http://pcwserver.com/sport/confrariatrotamontes/utsf/a-freita/
Inscrevi-me nesta prova no início de Março e andei a prepará-la durante quatro longos meses. Fiquei forte e confiante mas nunca perdi o receio da distância que tinha de percorrer... como será fazer 70km a correr com 4000m de desnível? e com 40º de temperatura? a resposta é simples e óbvia: é muito duro e muito difícil mas não é impossível, nada que não se faça em 17h e 33m!
Aqui está a prova:



A prova começou bem cedo, por volta das 5h e 30m da manhã, junto ao parque de campismo do Merujal, lugar idílico a não perder. Fomos de véspera e  dormimos no Berlingo Hotel and Spa.







Os primeiros 20 km de prova são rápidos e descendentes, aquecem as articulações dos joelhos à medida que o sol vai subindo no horizonte. Aos poucos o sol acaba com o vento fresco da noite e da madrugada e incendeia o dia.




Os últimos quilómetros antes do primeiro abastecimento são no leito de um rio, águas cristalinas e puras e muito tempo a subir e descer entre marmitas de gigante e vagas de erosão. Uma boa parte do percurso é ao logo de rios e ribeiros, mais tarde não resisti a dar umas refrescadelas de corpo inteiro.















O segundo abastecimento é em Drave uma aldeia abandonada perdida nas serras; os últimos habitantes partiram nos anos 60, agora são os escuteiros que mantêm algumas casas de pé. Aqui não chegam carros, tudo o que aqui chega tem de vir às costas de alguém e também não pode ficar nada, tudo está impecável e no seu estado natural.  




Mais rios e vertentes empinadas. A corrida estava a correr muito bem, mas a 5 km do abastecimento 3 ao quilómetro 40, cometo um erro gravíssimo que me ia custando a corrida: por preguiça, para não gastar 3 ou 4 minutos, não enchi o reservatório de água no rio. Os últimos 5 km são a subir uma vertente impinadíssima  e sem sombras, estariam mais de 35º e eu levava 6h de prova. Duas horas depois estava no abastecimento dos 40km, sôfrego e desidratado, levava uma hora sem água! Bebi uma mini de penalti, comi uma sandes de presunto com tomate, um monte batatas fritas, outra mini e mais umas porcarias para hidratar, enchi o saco de água com isotónico e pus-me a correr. 5 minutos depois estava com uma dor de barriga que não me aguentava em pé, náuseas, suores frios! estou arrumado... Tinha pela frente nada mais que "A besta", uma escombreira de uma antiga mina ao longo de um vale encaixado e com uma inclinação incrível!


Deitei fora o isotónico e troquei-o por água fresca de um riacho. Arrastei-me como pude até lá acima e decidi desistir... . a questão é que lá em cima não tinha ninguém para poder desistir de maneira que tive de me arrastar até ao quilómetro 50... oficialmente fora de prova! (isto na minha cabeça...) Aos poucos, a  digestão começou a funcionar e fui-me sentindo melhor. Comecei a passar por outros atletas também em dificuldades e fui contando a minha história. Trocávamos palavras de ânimo, algumas sem sentido, outras muito reconfortantes. Cheguei aos 50 km e não parei sequer para pensar no assunto, bebi 2 copos de água enchi o reservatório e não consegui meter nada na boca... 





Uma ou duas horas depois começava a sentir fome, mas só de pensar em comer ficava com vómitos. Com muito custo engulo dois ou três amendoins... fico novamente com terríveis dores de estômago no início de outra subida gigante, o quilómetro 60 parecia inalcançável! Aí ia parar definitivamente e desistir, só tinha de lá chegar, arrumei o assunto na minha cabeça e concentrei-me no que tinha pela frente, subir, avançar, otimizar os movimentos, o pé ali, o bastão acolá, a mão no ramo, poupa-te! tá quase, vai p'ra cima, tá quase... A Aldeia onde está o abastecimento já se vê, é do outro lado da vertente. Tá quase. No último riacho debruço-me para lavar a cara do suor e encher o reservatório de água e deixo cair a máquina fotográfica na água... boa, acabaram-se as fotos... (Mais tarde em casa pu-la ao sol e ficou como nova). E lá cheguei à aldeia, o abastecimento era no fim da aldeia! Mais um esforço, o entardecer começava a quebrar o calor abrasador, havia pessoas na rua, velhotes, uma senhora chorava desalmadamente à soleira da porta, acabara de lhe morrer o irmão em Santa Maria da Feira, dizia-me o vizinho dela... e lá esta o abastecimento. Sento-me no chão ao lado de um camarada com ar moribundo ligado a soro... Penso para mim, também não estou assim tão mal, tenho é fome  e preciso de sal. Há 20km que não comia nada! Às tantas encho-me de coragem e vou direito à panela da sopa que estava em cima da mesa, CANJA! A minha sopa favorita! Tenho que a comer nem que me vomite todo, estava salgadíssima e caiu-me bem. Comi meia tigela, tive medo das dores de estômago, havia também bifanas e minis mas não me atrevi. Esperei um bocado à espera do efeito e pareceu-me tudo bem. Tomei um Voltaren e fiz-me ao caminho, não contei a ninguém da minha intenção de desistir, fui salvo pela canja! Até ao 65km foi tranquilo, subir uma serra com uma inclinação humana. Do alto avistava-se uma pequena aldeia, no fim do planalto o sol era apenas uma enorme bola laranja a desfazer-se no horizonte e o céu passava para as cores do fim de tarde e depois para o anoitecer. Passei pelas pedras parideiras, um exlibris do geoparque de Arouca, aqui não eram mais do que lajes do caminho sem que lhes prestassem grande atenção. Ao lado da aldeia, um campo plano com chão de felgar plantado de milho, as casas na encosta sobranceira. Cheguei ao abastecimento do quilómetro 65, o último, os maus pensamentos ficaram pelo caminho, estava seguro que iria terminar. Comi um bocadinho de banana e dois gomos de laranja. Havia um simpático casal de espanhóis que deu muito alento aos atletas presentes, o homem dizia que devíamos estar muito orgulhosos de terminar esta prova, entre 40 a 60% dos atletas tinham já desistido, faltavam 5km, descer e voltar a subir a Mizarela. Saí redobrado de forças ao mesmo tempo que anoitecia. Fiz o resto da prova concentrado na bola branca à minha frente produzida pela luz do frontal, procurando as fitas reflectoras que sinalizavam o caminho, enquanto descia via as luzes que subiam na encosta contrária e pensava - falta ainda tanto e já estou tão perto.
De repente, uma estrada de alcatrão, depois um terreno macio, plano e com relva, um pinhal... corri, andei, corri outra vez, voltei a andar e lá estava a meta na escuridão, uns quantos entusiastas batiam palmas e uma senhora tirou-me uma fotografia e mandou-me ir tomar banho e comer. E pronto já está, mais nada. 
Gostei da prova, gostei muito das paisagens, da organização e das minhas pernas, do meu estômago nem por isso... e nem fiquei muito empenado, talvez por ter corrido pouco e andado muito. Não fosse a minha amada me ter entornado a cafeteira do chá a ferver em cima da perna logo de manhã, hoje tinha ido dar uma corridinha :)