quarta-feira, 6 de junho de 2012

Um pirata nas Caraíbas. Parte 2/3


Assim que saímos, começamos logo a levar no lombo, durante os primeiros dias, ondas de três ou quatro metros e vento fresco... num ápice Mogan ficou para trás com os nossos amigos do bar e da marina. À frente a imensidão até Cabo Verde, o nosso destino.
Vento de popa ou pelas alhetas, velas rizadas e ondas a varrer a coberta...
Conseguimos a primeira refeição 24 horas depois de zarparmos. Quando estávamos todos sentados junto ao leme com o prato com a comida, veio uma onda e zás, tudo a boiar, lá se vai a primeira refeição. 
A habituação à vida a bordo foi difícil com aquelas condições de mar. Todas as tarefas eram muito complicadas, principalmente cozinhar. O fogão tinha um mecanismo engenhoso para oscilar juntamente com o barco e as panelas eram presas ao próprio fogão. Para abrir um armário era necessário esperar pelo momento certo das ondas senão caia tudo lá de dentro. O frigorífico só se podia abrir se o barco fosse adornado a bombordo senão as latas de cerveja caiam todas e ficavam a rebolar de um lado para o outro.
Nos primeiros dias alimentámo-nos a cerveja e bolachas (na foto o espanhol com a cerveja na mão, acho que está assim em todas as fotos).
Dormir era uma comédia. Eu dormia no sofá do salão, tinha uma tábua que estava debaixo da almofada do assento e que se armava na vertical de maneira que dormia entalado entre essa tábua e as costas do sofá e ponha uma almofada a cada lado da cabeça para ficar entalada e não abanar de um lado para o outro enquanto dormia.
Quanto à casa de banho, nunca mais a utilizei depois do outro episódio, era sempre para sotavento...






O tempo foi melhorando. Passada uma semana, começámos a ver os primeiros sinais de terra, uns passaritos, algum lixo, até que apareceu terra, a ilha de São Vicente. Apontámos à baía do Mindelo e fundeamos, exaustos, aliviados e perfeitamente adaptados às condições.







Daqui ficaram mais duas histórias de marinharia, estas um pouco mais tristes. Ao nosso lado estava fundeado um motorsailer holandês que tinha estado connosco em Mogam e tinha saído uma semana antes de nós. Eram duas pessoas a bordo, o dono do barco e um amigo Belga. Apanharam um temporal terrível (nós só apanhámos o final). Durante uma noite de navegação ao largo da Mauritânia, o Belga que vinha a dormir no camarote sentiu o barco desgovernado no meio do temporal. Saiu cá fora e não viu o amigo. Nunca mais o viu. Caiu borda fora e foi engolido pelas ondas. Lançou um alerta, voltou atrás... mas não serviu de nada.
Ali estava ao nosso lado o rapaz, sozinho, num barco que não era dele, a ter de lidar com a polícia caboverdiana, ter de dar a notícia à família do dono do barco... etc. Situação lixada!
Outra história era a de um barco que também estava lá fundeado, havia já algum tempo e tinha aspecto disso, parecia um navio fantasma. Um rapaz contou-nos que se pensava que o barco pertencia a um navegador solitário, ninguém sabia ao certo. O que se dizia é que o comandante do barco tinha vindo a terra num dingy e ao regressar, já no fim da tarde, foi arrastado pelo vento e pela corrente para o alto mar. Nunca mais ninguém o viu... (se calhar tinha apanhado o avião e tinha ido para casa...)
Não me parece difícil ser arrastado para o alto mar, ali, e naquela altura do ano o vento é fortíssimo e a nós aconteceu-nos o mesmo, eu o Rafa estávamos a bordo do Ibero e o Sebas e a Emi tinham ido a terra no dingy. Ao regressarem, passaram por nós a grande velocidade sem se conseguirem agarrar ao veleiro. Quando percebemos a situação, que ao princípio parecia gozo, já era tarde demais. Ainda lancei um cabo, mas não valeu de nada. Felizmente estava a passar um pequeno barco de pesca que rapidamente safou a coisa. Foi o pescador que nos contou a história do navegador solitário.







Café Delta e SG Gigante! Num café cheio de fotos do Rui Veloso, Pedro Abrunhosa, Eusébio e outros personagens...




2 ou 3 dias de Mindelo e lá fomos nós outra vez. Agora para a travessia propriamente dita, tínhamos 3 semanas pela frente até ao Caribe.



A bordo está-se sempre ocupado, constantemente se vai manobrando, para aproveitar o vento da melhor forma, mudar as velas da proa, caçar ou folgar a maior, rizar, soltar os rizos, mudar de bordo, etc. O vento chega a mudar um quadrante, durante o dia, de maneira que temos de estar sempre a fazer ajustes.   O veleiro nunca pára, de noite e de dia, sempre ao sabor do vento. É uma máquina perfeita, fiquei fascinado pela invenção! Não conheço uma máquina tão harmoniosa a desempenhar a sua função, adapta-se naturalmente a todas as condições de mar e vento e navega em todas as direcções, excepto contra o vento. Há ainda um monte de outras tarefas: cozinhar (lavar a loiça era fácil, punha-se tudo dentro de um saco de rede preso por um cabo e atirava-se borda fora, passados 5 minutos estava tudo a brilhar), limpar, arranjar coisas, pescar e dormir. Nunca se dorme mais de 4 horas seguidas, há  sempre duas pessoas acordadas e duas a descansar.



A pescaria por vezes corria bem, pescávamos ao corrido, uma linha sempre largada à popa, na ponta um destorcedor, depois um metro de cabo de aço fininho, um anzol grande, género fateixa, escondido num polvo de plástico colorido. Apanhámos quase sempre a mesma espécie, dourado e um ou outro atum pequeno. Nunca conseguimos tirar nenhum peixe dos mesmo grandes... a  habilidade era pouca e o material de pesca fraquinho, a cana tinha sido oferecida pelo Joan, o dono do bar de Mogan, o carreto da cana já não estava em grandes condições, de maneira que com puxões mais fortes a seda partia-se... Ainda assim foram muito fixe estas pescarias. Quando picava um bicho, a vida mudava a bordo, todos saíamos da letargia da ondulação e ficávamos todos aos pulos. Assim que um peixe caía no convés, a panela ia logo para o fogão, independentemente da hora, chegamos a comer caldeirada de Dourado às 10 da manhã...







Três episódios mais, durante a travessia. Um mergulho que dei no meio do oceano num dia sem vento em que baixamos as velas por um momento e ficamos a desfrutar a imensidão. Atirei-me à água, nadei por baixo do casco, atravessando por baixo da quilha, de um bordo ao outro. O azul da água era profundo, a transparência dava uma sensação inesquecível de vertigem. A carta marcava 2000m de profundidade. Aqui não tinhamos pé. :)
O segundo episódio: um dia lembrei-me de lavar a minha roupa, as t-shirts já ficavam de pé com o salitre... pus tudo dentro de um balde com água do mar e detergente para desencardir e amarrei o balde na popa do barco. Passado um bocado olhei para o balde e ele tinha-se voltado... fiz o resto da viagem com uma só t-shirt... um par de calções e sem cuecas...!

O terceiro episódio, no meio de uma manobra com a Genoa, a vela da proa, alguém (não me acuso) deixou escapar a adriza (o cabo que sobe a vela). Esta saiu disparada e deu três voltas ao mastro enrolando-se nos outros cabos todos, deixando tudo inoperacional... uma avaria bem complicada! O Sebas tinha um temperamento terrível e começou a largar blasfémias em todas as direcções: «lo cagamos tio, foder!!! me cago en la puta», etc, etc...
Enchi-me de coragem e subi ao mastro no meio de um vento do caraças com cabos enrolados a tudo à minha volta e o barco à mercê das ondas por estar à deriva. Prendi o meu arnês a um cabo pelo qual o resto da malta me içou e passei um mosquetão ao brandal da popa (o cabo de aço que vai do topo do mastro até à popa do barco). Enquanto tentava desenbaraçar aquela trapalhada toda, o balanço do barco fazia-me dar voltas ao brandal e os meus pés pendurados abanavam demasiado perto do windogerador que girava furiosamente... ai que medo... vou ficar sem pés... morro enforcado pela barriga... ok, não aconteceu nada e lá safamos a situação. No fim, o espanhol olha para mim já a sorrir -  «foder tio que huevos tienes!»


Dois dias depois... TERRA À VISTA!


 Barbados.

(continua.)