quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A pena do meu Pai.

A viagem ao Cáucaso, pela pena do meu Pai, que escreve muito melhor que a minha.
In: Jornal de Minde. Ago2012



É já ali...
ao dobrar a esquina

Um indivíduo não pode ser um cinzentão toda a vida.
Há momentos de extravasar, de se aventurar, de fazer umas asneiras, desde que elas não sejam irremediáveis. Caso contrário, até parece que se nasceu dentro de uma redoma e nunca se teve coragem de mandar a redoma às urtigas.
Era mais ou menos isto que eu pensava depois de, num momento de alguma irreflexão, ter dito ao meu filho – Vamos a isso! – e de ter começado a pensar que me estava a meter numa grande alhada. Já com ele a situação é diferente. Se lhe resta na memória ter acompanhado o pai em alguma aventura infantil, a verdade é que rapidamente abriu asas e furou sozinho muitos horizontes. Desde os mil buracos da nossa serra, à escalada aqui perto e mais longe, até chegar à travessia do Atlântico em barco à vela, com mais três amigos, desde Cabo Verde até às Caraíbas. Chegaram aos Barbados três semanas depois de terem partido. Os anos vão passando, o filho vai amadurecendo e o pai vai ficando velho, e foi agora que o filho entendeu que era boa altura de fazermos uma aventura em conjunto. Para os que não sabem, o meu filho é o Ricardo, e  assim me vou referir a ele daqui para a frente.

Em vez do cavalo do D. Quixote e da burra do Sancho Pança
… uma Berlingo um bocadinho artilhada



É como se vê! O Ricardo dividiu a caixa de carga da Berlingo em dois pisos. No rés do chão, cujo acesso é pela traseira ou levantando parte do soalho do 1º andar, transportam-se roupas, comestíveis e equipamentos – fogareiro camping-gás, reservatório de 20 l de água com torneira, reservatório para combustível de reserva, e trem de cozinha – alguidar com pratos, talheres, copos, detergente da loiça, esponja e pano de cozinha. Ainda no rés do chão, mas com acesso pela porta lateral, uma mala térmica com arrefecimento, mas que só funciona quando trabalha o motor do carro. Permite ter bebidas frescas e conservar alguns alimentos. O 1º andar cresce em comprimento chegando para a frente os assentos do carro e retirando a rede que separa o compartimento de carga. Dois colchões de espuma, sacos cama e cortinas que prendem por dentro com velcro, e temos uma área muito confortável para dormirem duas pessoas. De vez em quando dorme-se em hotel para poder tomar banho, apesar de levarmos um chuveiro de campismo.
No total dormimos 14 noites na carrinha e 6 em hotel. O Ricardo instalou ainda, no compartimento da frente, várias tomadas de 12 volts para o GPS, caixa frigorífica e outras finalidades. Deram um jeitão em certa altura. E ainda duas tomadas de 220 volts para carregar telemóveis e baterias das máquinas
fotográficas. Para além disso, passaportes, documentos de Vistos, mapas - o GPS não é acessível desde o fim da Turquia até entrar na Rússia – dinheiro e informação sobre a moeda de  cada país, valor de câmbio, blocos de apontamentos, mini-dicionário de russo. E ainda meia dúzia de relógios, daqueles que fazem um espectáculo no pulso, mas custam 3 € no Chinês. Eu um dia ainda lhes conto quanto renderam os relógios…

Aí vamos nós

No dia 30 de Junho partimos de Minde, alojados na carrinha, preparados para algumas eventualidades - nunca se está preparado para todas – com o plano de seguirmos para leste. Passar em grande velocidade Espanha, França, Itália, Islovénia, Croássia, Sérvia, Bulgária, e entrando na Turquia até Istambul.
Depois, na mesma direcção, em marcha mais lenta, tentando chegar à Geórgia, à Arménia, e a Nagorno Karabach. A seguir, rodando o Mar Negro pela Abekázia, Rússia e Crimeia. A partir daí, continuando pela Ucrânia, Moldávia, Roménia e Hungria. Depois, com o mínimo de paragens, pela Áustria, Alemanha e Suiça, de modo a fechar o circuito no sul da França, com regresso a casa.
Em termos de objectivos, rodear o Mar Negro, e dar uma olhadela às independências dessa zona nascidas da Perestroika. Na medida do possível visitar os povos que tiveram de pegar em armas por não aceitarem trocar a dependência da União Soviética pela dependência de um outro país com o qual não se identificavam, caso de Nagorno Karabach,ou simplesmente ficando prejudicados nos seus interesses – caso da Abekázia.

Dia a dia

O programa diário começa pelas 7 horas. 30/45 minutos para higiene matinal, arrumo da carrinha, e pequeno almoço - leite com chocolate, pão e manteiga (doce/presunto), e vamos para a estrada.
Conduz ora um, ora outro. Pelas 11h, uns minutos de intervalo e vai uma sandes com uma bebida. Nova etapa, novo repouso e mais uma sandes pelas 15h. Pelo por do sol, procura-se um sítio bom para pernoitar – numa área de serviço de estrada se houver, ou um pouco retirado da estrada, de preferência à beira dum rio, em sítio discreto mas de boa visibilidade. Uma vez escolhido o local, inspecção aos arredores, fogão aceso, um fio de azeite, umas rodelas de cebola, tomate, chouriço (ou linguiça ou salsicha) sai o refogado, água até ferver, arroz, massa ou esparguete. Ou um jantar de enlatados ou ainda uma sopa das que se compram desidratadas. Enquanto coze, as duas cadeiras de repouso, dois copos de vinho para acalmar, até que o nosso jantar está pronto. Depois do prato, uma fruta e um nescafé, se apetecer. Tudo feito à medida, para que não falte nem sobre. Não havendo TV nem entretenimento nocturno, arrumar a cozinha e vamos dormir, já que, quem cedo se deita, cedo acorda. E foi neste ritmo que fizemos 14.693 Km em 21 dias, estivemos em 21 países e atravessámos 47 fronteiras, contando as da Comunidade Europeia.

Curiosidades

-Nagorno Karabach é o único território do mundo que se considera independente, mas nenhum país o reconhece como tal. Resultado: só tem uma porta por onde se pode entrar e sair. Confronta com a Arménia e o Azerbeijão mas só está aberta a porta da Arménia. Entrámos, fomos até à capital – Stepanakerk – fomos muito bem tratados, mãe e filha, todas sorridentes porque não havia outro modo de nos entendermos,
serviram-nos no quarto do hotel um belíssimo pequeno almoço, e voltámos à Arménia sem darem pela nossa falta. O que nós queríamos era atravessar o território e sair pelo leste para o Azerbeijão mas a fronteira está fechada. -A Abekásia fez guerra para se separar da Geórgia e teve o apoio da Rússia. Mais
tarde foi negociado o cessar-fogo, o território considera-se independente e tem o reconhecimento da Rússia, mas não o da Geórgia, que continua a proceder como se a Abekásia fizesse parte do seu território.

Resultado: passámos da Geórgia para a Abekásia, devíamos ter voltado pela mesma fronteira para a Geórgia…mas não voltámos, e saímos pela fronteira do outro lado entrando na Rússia. Ainda agora na Geórgia devem andar à nossa procura. Cá por nós, podem continuar à procura … gostei de ver o país mas não espero voltar

Se esta crónica o divertiu, voltamos para a próxima!

A Nogueira