segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A pena do meu Pai. Parte 3


A viagem ao Cáucaso, pela pena do meu Pai, que escreve muito melhor que a minha.
In: Jornal de Minde. Out2012



É já ali
… ao dobrar da esquina

GUARDIÕES DA LEI

Fartos de pagar portagens já que, sem isso, a cancela não abria, ao terceiro dia chegámos
à Eslovénia. Não vimos cancelas, os carros ligeiros eram encaminhados para a pista da
esquerda através de sinais no chão e o caminho estava sempre aberto. Pela direita iam os
camiões que tinham cancela. Interessante, neste país os turismos não pagam portagem.
Mal tínhamos chegado a esta conclusão e já o país estava a acabar.
O guichet do costume… onde é que está a vinheta?
-Qual vinheta, qual carapuça?
Multados em trezentos Euros porque devíamos ter adquirido a vinheta ao entrar no país.
- Nós não sabíamos, ninguém nos avisou, lá donde a gente vem esses papelinhos servem
para outra coisa, além disso vocês são maçaricos na Comunidade Europeia, nós já cá
andamos desde o tempo dos nossos avós… onde é que está o papelinho, que nós vamos lá
comprar…
-Isso era 100 metros mais atrás, agora paga e não bufes!
O Ricardo usou as técnicas todas, lá conseguiu um desconto de 50%, pagando ali na hora,
em dinheirinho trocado.
A partir daí, passámos a andar atentos à vinheta. Isto até ao fim da Bulgária, porque,
depois disso, mais de mil quilómetros de Turquia, ora auto-estrada ora não, uma boa parte
estava em obras, nem pagámos nem ninguém nos incomodou.

Sem auto-estradas nem GPS, na Geórgia e na Arménia orientávamo-nos por mapas. Meia
volta, tínhamos de pedir informações, coisa complicada quando não se sabe nem uma
palavra da língua. Cruzamentos, hesitações, há um grupo de homens na beira da estrada…
-Alavérdi? – perguntamos nós, e apontamos a direcção da estrada.
Torceram o nariz!
… Alavérdi ? – volto a repetir…nada!
Até que um descobriu a pólvora…
… Alaverdí ?
Rimo-nos. Para nós era a mesma coisa. Por acaso até íamos bem.
O Ricardo contou que, uma vez, no Porto, onde esteve a trabalhar, parou um tipo que
conduzia um camião e perguntou o caminho para Lecsoés.
-Lecsoés?
O homem tinha a certeza, mostrou no mapa…
- Ah, pois, Leixões… é sempre em frente!
Mais adiante chegamos a um entroncamento…hesitamos…entramos para a esquerda,
damos pelo erro, meia volta ao volante e zás, estamos na direcção certa… e lá ao fundo
um guardião da lei já com a mão no ar.
-Tamos a contas…
Quando paramos ainda tento disfarçar...
-Alaverdí ? – e com a mão… é por aqui?
O tipo faz um sorriso bacana (- b, + s…) e até parece que falava a mesma língua que eu…
-É por aqui, sim…e a manobrazinha lá atrás?
O Ricardo sai do carro, põe-lhe a mão no ombro, puxa-o para a beira da estrada, eu fico a
ver a técnica.

Tenta amolecê-lo, o tipo é mais duro que um calhau, diz-lhe que já andamos há muito na
estrada…que não temos dinheiro, só estas duas notinhas vamos a caminho da fronteira, já
não podemos cambiar, e porque torna e porque deixa…mas tem uma magnífico souvenir
para lhe dar, trazido do mais longínquo ocidente, e tal e coisa…
Parecia um minderico a vender uma manta na feira de Montemor.
O homem começa a ficar mais manso, o Ricardo vem ao carro e lá vai um magnífico relógio
dos tais do chinês. O homem agarra o relógio, a princípio desconfiado, depois encantado...
o Ricardo vai para se despedir, mas o tipo segura-o pela manga:
… as duas notinhas também! (não valiam nem 10 cêntimos)
O Ricardo dá-lhe as notas meio contrariado, volta ao carro e arranca à pressa.
-Vais a fugir, enganaste o homem!
- Vou a fugir mas é dos colegas dele, antes que venham aí todos à cata de um relógio…

Dois dias depois, estamos na Abkásia.
Entramos no território sem saber ler nem escrever, graças a um papel que o Ricardo
conseguiu em Lisboa através de uma Agência de qualquer coisa. Escrito em russo e
cheio de carimbos. Nem sabíamos que aqui a moeda é o rublo. Sábado, casas de câmbio
fechadas, amanhã é domingo, nem cinco reis para comprar pão ou beber uma cerveja. Na
entrada dizem-nos que temos de ir à capital para obter um carimbo e depois sair por onde
entrámos. Mas só na 2ª feira, que amanhã é domingo, o Ministério está fechado…
E nós que queríamos era atravessar o país e sair pelo outro lado para a Rússia. O contrário
pode atrasar-nos uma boa meia dúzia de dias.
Já no dia seguinte, seguíamos para norte, fomos apanhados num limite de velocidade.
A técnica do costume, o Ricardo sai do carro, inicia as negociações, aproveito para ir aliviar
a bexiga atrás duns arbustos.
Quando regresso, há 3 ou 4 polícias de volta do Ricardo como se ele tivesse caído do céu –
só faltava dizerem: - Os deuses devem estar loucos!
…sou o pai daquele sucesso todo, envolvem-me na festa. A multa está perdoada, aquele
polícia que está ali já esteve em Tenerife e Marrocos...
- Ah pois, Marrocos, conhecemos muito bem, são nossos vizinhos, é porta com porta!
... e mexe num computador, enquanto os outros olham para a maquineta como um boi
para um palácio. Levou-nos para um gabinete, mandou-nos sentar, os outros espreitam do
corredor ou lá de fora pela janela.
…no computador, entra em contacto com uma namorada que fala inglês e trabalha numa
qualquer repartição, tem mais namoradas na rede de contactos. A rapariga teclava de
lá, o Ricardo teclava de cá, mas o polícia queria que a namorada fosse traduzindo para
russo, não fossem os estrangeiros combinar com ela algum esquema que lhe fizesse
nascer algum apetrecho na testa. Ela traduzia para russo mas ambos tinham que mudar no
computador os caracteres romanos para os cirílicos e vice-versa…
A rapariga perguntou que documentos é que tínhamos, o Ricardo lá lhe respondeu e ela
disse que, com esses documentos, não via razão para não nos deixarem sair para o lado
da Rússia. Sobre cambiar dinheiro – aí o meu amigo explica… há uma localidade com um
mercado, há lá quem cambie dinheiro mesmo ao Domingo.
Ficámos radiantes. O Polícia explicou, mas queria voltar a ver-nos quando voltássemos.
O mercado era maior que a feira de Serpa, o dinheiro cambiava-se nas padarias – vá lá a
gente saber porquê! Levaram-nos a uma onde havia três senhoras novas na cuscuvelhice.
Quando falámos em Portugal…Cristiano Ronaldo, Mourinho, toda a gente conhecia…uma
delas disse logo: Levem-me com vocês! (a gente até lhe fazia o jeitinho, mas o carro só
tinha dois lugares…)

Lá nos cambiaram o dinheiro e voltámos ao polícia que queria pôr-nos a par das suas
grandezas. Era a única pessoa na Abkásia que tinha um camelo de duas bossas. Não
percebi muito bem para que era o camelo...mas mostrou-nos no computador a foto dele
ao lado do camelo. Também tinha o penúltimo modelo dos Lamborghini (ou uma marca
dessas, da gente fina) e lá estava ele ao lado da máquina (acho que as fotos tinham sido
tiradas numa rua qualquer de Tenerife ou Marrocos, mas quem era eu para contradizer
um indivíduo que nasceu na Rússia, foi cidadão da Geórgia e é polícia da Abkásia… são
títulos a mais, a gente tem de ter respeitinho…)
…aproveitámos para lhe pedir o contacto, para o caso de virmos a ter algum problema
com polícias na Abkásia... ou na Rússia, ou em Tenerife ou em Marrocos, tudo sítios que
ele conhecia e onde tinha namoradas. Escreveu num papelinho… nós não entendíamos
nada do que lá estava escrito, mas, com o papelinho no bolso, parecia que tínhamos
abertas todas as portas deste mundo e arredores.
Mais uns quilómetros de estrada e estávamos na fronteira. Apresentamos os papéis, dão
uma vista de olhos e mandam-nos seguir.
…não posso acreditar…
Seguimos na bicha, mais adiante outro guichet…. isto já é Rússia…adeus Abkásia, qualquer
dia volto cá, a ver se o polícia já é dono do Mar Negro.

O polícia seguinte já foi na Hungria.
…alto, espadaúdo, a tresandar a autoridade, a meio quilómetro de distância já se via a
mão no ar.
Eu ainda não contei que a nossa carrinha teve uns problemas pelo caminho, e daí, às
tantas, ficámos sem médios. Buscas e mais buscas, fusíveis, ligações, cabos... resolvemos
o problema passando um cabo que ligava ao suporte de um dos médios, e vinha ter junto
aos pés do condutor. Ligava-se com uma ficha à tomada do isqueiro e funcionava… na
perfeição! – como dizia aquela do anúncio. Era o pendura que se encarregava da manobra
sempre que se fazia noite ou quando passávamos algum túnel.
…pois o polícia húngaro começou por meter a mão pelo vidro da janela do condutor
(pensei que o Ricardo ia levar um puxão de orelhas!) e ligou, com toda a sua autoridade, o
comando dos faróis. O Ricardo deu-me um toque na perna. Discretamente meti a ficha no
isqueiro enquanto o polícia ditava a sentença:
- Aqui é obrigatório andar com os faróis acesos. (mal ele sabia que fui eu que os acendi!)
O Ricardo conta muito bem esta história no seu blog “estoupraver.blogspot”:

“ Vais ter de me pagar 200 €, dizia ele em Húngaro! Eu respondi-lhe em Português - amigo, eu
como polícias como tu ao pequeno almoço há três semanas... depois em Inglês disse-lhe que
não tinha 200€ nem nada que se parecesse, contei-lhe a nossa viajem e a meio de enumerar
todos os países por onde havíamos passado nos últimos dias ele já deitava a conversa pelos
olhos. Aproveitei a deixa arranquei-lhe os meus documentos da mão e troquei-os por um
magnifico relógio de 3€. O bom homem riu-se, meteu o relógio ao bolso e disse-nos adeus, ali
mesmo nas barbas do Durão Barroso!”

O próximo polícia foi já em Portugal, mal entrámos em Vilar Formoso. O tipo queria à viva
força que o aparelho de soprar funcionasse, mas ou era do aparelho ou era do meu fôlego,
aquilo nem chus nem bus. Finalmente deixou descansar o aparelho e eu descansei também.
Quando me mandou soprar outra vez, parecia um vendaval. Lá acendeu o verde. Também,
o último toque em álcool fora um copo de cerveja pouco maior que um dedal, em
Espanha, uma hora antes.
-Façam boa viagem!

-Obrigadinhos a vossência, e até mais ver!
Têm nível estes polícias europeus, mas não chegam nem aos calcanhares do polícia
da Abkásia – conhecia Tenerife e Marrocos, manobrava um computador, tinha não sei
quantas namoradas, um camelo e um Lamborghini!
…e chamam àquilo um país arrasado pela guerra!


…é proibido tirar fotos a polícias, embaixadas, postos fronteiriços e coisas desse género.
Daí, esta crónica não tem fotos para exibir. Também não tinha espaço nesta página. Vou
colocar alguma tirada por lá, noutra página qualquer. Onde der mais jeito…

A Nogueira

Estamos numa das entradas de Sófia, a capital da Bulgária, a uns escassos 500 m da zona monumental da cidade. À nossa direita esta magnífica oficina de reparação de carroças…
Estes países, há vinte anos eram parte da União Soviética, depois independentes e agora já fazendo parte da Comunidade Europeia, ainda proporcionam imagens curiosas,
É o que se chama ter de andar depressa para acertar o passo!