segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

E tu, já correste uma Maratona?

Eu já!! :) e foi ontem.

Ganhei uma medalha, uma t-shirt e um andar novo! Hoje não consigo dobrar os joelhos...
Pois, ontem corri a 27ª edição da Maratona de Lisboa. 1891 atletas inscritos para os 42,195 Km mais famosos do desporto. A prova começou e acabou no estádio 1º de Maio, um friozinho de rachar na partida, que foi muito emocionante... a mim quase me vieram as lágrimas aos olhos, não sei se do frio, da bebida energética que tomei, se dos tambores a rufar alinhados na linha de partida se do meu estado de excitação. Deve ter sido tudo misturado.
Com o entusiasmo só dei por mim a chegar ao quilómetro 10, tinham passado 47 minutos. Vi logo que tinha feito asneira, estava a correr demasiado rápido e ia pagá-lo no final da prova. Concentrei-me ao máximo para manter um ritmo mais baixo e poder chegar ao fim. E lá foi atrás dos outros... a ver os rabos, a ver os prédios, a ouvir os comentários dos outros, os aplausos do apoiantes nos passeios, o meu coração a bater, a sinfonia das escarretas dos atletas... a fazer os possíveis para ter a mente longe dali e relaxada, para não ligar aos murmúrios que começavam a aparecer no joelho esquerdo e que bem sabia que dentro de uma ou duas horas seriam insuportáveis, assim como a dor na planta do pé direito que a cada passada ia segredando aos nervos da perna, pela coluna vertebral até chegar ao meu cérebro... 10 km, 15 km tranquilo, bela corrida... aos 17 km toca o telefone, estou a chegar ao Marquês, recebo um convite para almoçar do amigo Rui. Maravilha, o sol, o ar frio nos pulmões, o transito está cortado, o Marquês e a Avenida cheia de atletas... quando dou por mim estou no Terreiro do Paço, 20 Km, a calçada nova do chão faz acordar o  murmúrio do joelho e o pé direito desata a ralhar com os nervos da perna... é aqui, percebi imediatamente... aqui acaba a zona de conforto, é a partir daqui que se realizam os sonhos... aguenta! Cais do Sodré, Jardim de Santos, dor! afasta os pensamentos o mais que possas... dizia-me o anjinho que corria ao meu lado. Quantos episódios vivi por estes lados ao longo da minha vida...  dor! tento recordá-los e pô-los por ordem cronológica. 24 de Julho, Alcântara, Ponte, quilómetro 25, dor.

Em sentido contrário, passam os primeiro atletas. Isolado, o primeiro da Maratona por estafetas, depois os candidatos aos primeiros lugares, a primeira mulher, que ar tão fresco e saudável, dor! Jerónimos! agarro o telefone e ligo ao meu Primo Miguel. Tínhamos combinado que ele estaria por ali para fazermos os últimos 15 km juntos, não conseguia pensar em mais nada, como se ele me fosse carregar às costas. Os meus olhos vasculham em redor à procura do salvador Miguel.... do outro lado ele atende o telefone e diz, - não consegui passar.... estou ao pé da ponte! dor, dor, muita dor! - Ok Miguel, até já. A corrida inverte o curso, alguém ao meu lado diz - agora é só voltar para casa. Sim é isso, agora é só voltar para casa... mas a Ponte ainda está tão longe...
30 Km, quantos faltam? o meu raciocínio já não está normal... os pensamentos estão a ficar espessos... Dos 12 km/h do princípio da prova já me arrastava a 8 km/h. Por fim lá aparece o Miguel e houve um salto no tempo, a conversa distraiu-me e num instante estávamos a pisar a calçada do Terreiro do Paço. O quilómetro 37 aparece no início da Almirante de Reis. Faltam 5, é ir ao fim da Mata... Tinha a prova como concluída, não sei porquê mas tinha metido na cabeça que se chegasse à Almirante  Reis a prova estava feita... mas a Avenida é gigante, sempre a subir, os quilómetros estavam cada vez maiores, a Praça do Areeiro estava sempre no mesmo sítio, teimava em não se aproximar. Só me lembro de ver umas pernas com umas meias coloridas a passar por mim, era sempre o mesmo par de meias, passou várias vezes por mim... - já estou alucinar! ah, ok... o dono das meias ía correndo e andando de maneira que eu passava por ele quando ele andava, mas só o via quando ele passava por mim. Quando finalmente chegamos ao Areeiro, percebi que era truque da cabeça do Sá Carneiro, pendurada na estátua, ria-se de mim às gargalhadas. Quilómetro 40, os últimos quilómetros estão de certeza mal marcados! motivo mais que suficiente para queixa à organização. Avenida de Roma, quase me vinham as lágrimas aos olhos, o joelho e o pé já não chateavam misturado com o resto das dores e cãibras nas pernas todas, estas pernas não são as minhas... isto foi cena do Sá Carneiro... ao mesmo tempo tinha uma sensação engraçada, desde o início da Almirante Reis, como se a hipótese de desistir tivesse deixado de existir, agora não há nada a fazer, tenho de chegar ao fim, a sensação que se tem no ar quando se salta da prancha da piscina. E lá cheguei ao Estádio, a meta era só depois de dar uma volta à pista de tartan, coisa que apesar de muito gloriosa era perfeitamente dispensável, só queria parar... e nem foi muito emocionante acabar a prova, o melhor foi um copinho de chá quente que me deram depois da meta e o muitos parabéns que me deram os outros atletas que ali estavam. Parabéns era a palavra de ordem que reinava por ali. Os parabéns que souberam melhor foram os do Miguel, acho que sem ele a história tinha sido bem diferente. Muito obrigado, Miguel.

O Gregos a quererem-me apanhar! sem hipótese.




Agora sou MARATONISTA. Respect.




Resta-me dizer que demorei 4 horas e 17 min para fazer a prova e fiquei na posição 1182. Ganhou um atleta Russo Oleg Marusin, com 2h e 19 mim, ou seja, quando eu acabei a prova já ele estava a dormir a sesta depois de ter almoçado. Com 2h e 45 min chegou a primeira mulher, a Portuguesa Anabela Gomes, do Grupo Desportivo Joaninhas :)
Anabela Gomes. Ri-te, pá!
O ultimo a chegar foi um atleta Inglês de seu nome Ivor John Davies com 6h e 8 mim, já eu tinha almoçado e estava às voltas no sofá. Atenção que este senhor tem mais de 60 anos. Havia muitos camones, mesmo muitos e muitos com idade bem avançada... acho um espectáculo os velhotes a darem cartas nestas provas e houve muitos cabelos brancos a passarem por mim... também há muita gente que faz das Maratonas uma forma de viajar e conhecer países, vê-se pelas t-shirts que vão correr a todo o mundo. 
2013 vai ser o ano do Trail Running, o desporto da moda, eu e o Miguel já estamos inscritos em dois ultra trails e noutras provas mais curtas.

E tu, já correste uma Maratona?

...estoupraver...