domingo, 7 de outubro de 2012

A pena do meu Pai. Parte 2


A viagem ao Cáucaso, pela pena do meu Pai, que escreve muito melhor que a minha.
In: Jornal de Minde. Set2012



E já ali… ao dobrar da esquina

A ocasião faz o ladrão

Já lá vão uns bons anos, andávamos, a minha mulher e eu, a dar uma volta por Espanha. Um
dia hospedámo-nos numa terra cujo nome não recordo, mas sei que o Hostal era num rés do
chão e era terra de passagem de emigrantes.
Nessa altura, as Casas de Hóspedes espanholas tinham uma Bíblia em cima da mesa de
cabeceira, sugerindo ao cliente que aproveitasse os momentos de insónia para ler alguma
coisa que valesse a pena.
O que nos surpreendeu foi verificar que as Bíblias, apesar de utilizáveis, estavam presas
à parede por um cabo de aço. No dia seguinte perguntámos a razão. Notou-se que o
recepcionista ficou um bocado envergonhado perante a nossa pergunta, mas lá conseguimos
sacar a resposta. É que por ali os portugueses tinham fama de roubar dos quartos tudo o que
pudessem.
- Os últimos que cá estiveram até as mesas de cabeceira levaram!
- As mesas de cabeceira?
- Passaram-nas pela janela enquanto outros lá fora as arrecadavam.
Meio envergonhados, lá fomos saindo – mas tivemos o cuidado de dar tempo ao recepcionista
para mandar verificar se faltava alguma coisa no quarto.

Nesta viagem para Leste descobrimos que as estações de serviço ao longo das auto-estradas
na Europa são um espectáculo, nomeadamente em França. Grandes áreas, espaços enormes
para camiões TIR, muitas vezes áreas especiais para veículos de turismo, em alguns casos
parques de campismo anexos, tudo preparado para o viajante que, como nós, pode querer
dormir no camião, ou no carro ou na caravana. Já o abastecimento de combustível não existe
em todas as áreas. Comparando com Portugal, fica-se com a impressão de que lá fora as coisas
existem para servir o viajante – cá, existem para dar lucro a quem explora a área.
Mas há sítios onde se vão tomando medidas contra o vandalismo e os pequenos roubos.
Em Irun, ao entrar em França, a área tinha sido “reconvertida” há pouco tempo, suponho que
uma parte ainda nem estava inaugurada. Nas instalações sanitárias não há nada que possa
ser roubado. As torneiras são bicas cravadas na parede que funcionam através de sensor
incorporado. O rolo de papel higiénico está do outro lado da parede e puxa-se por um orifício.
Entre cada duas cabinas está uma porta fechada com a indicação “Arrumos”. É nítido que o
encarregado da limpeza guarda aí a vassoura, o balde, a esfregona e o papel higiénico, que
coloca de tal forma que pode ser puxado através dum orifício por quem estiver nas cabinas
anexas. Não há interruptores. Luzes e som ambiente (vivó luxo!) funcionam por sensores, e
as lâmpadas estão tão altas que ninguém lá consegue chegar. Os cabides estão cravados na
parede, não podem ser desmontados.
Melhor do que isto só as Bíblias dos espanhóis, presas com cabo de aço.

A nossa segunda tarde de viagem era ao longo da Cote d’Azur no sul de França.
Terras de gente fina que torna fino o lugar onde está - Saint Tropez, Cannes, Nice, Monte
Carlo, Sanremo.
E foi nestas terras de gente fina que acompanhámos a carrinha dum zé portuga que parece ter
aprendido a sobreviver no mundo em que se movia. O nome português e o reclame estavam
na traseira da carrinha. Qualquer coisa que se pode traduzir mais ou menos assim:
Zé Manel, ladrilhador
Não colo azulejos – APLICO ARTE.
- Aí grande tuga – se os queres agarrar, fala a linguagem deles!
A tarde a princípio ia divertida, mas lá para o fim complicou-se. Domingo de sol, toda a gente
foi para a praia e, ao fim da tarde, toda a gente queria estar em casa para ver a final do Euro.

Por nós, a praia estava posta de parte, e o nosso aplauso não fazia grande falta ao Euro. Mas
do engarrafamento não nos livrámos.
A certa altura havia uma zona de refúgio...vai disto! Enquanto descansamos, a onda passa, e
mais tarde seguimos caminho. Tanto mais que já havíamos passado o Mónaco e entrado na
Itália. Génova, que era o objectivo do dia, já se via lá ao fundo.
Um camião TIR português já tinha encostado antes de nós e fez-nos sinal. Dois dedos de
conversa, vocês para onde é que vão, e você donde é que é, o homem faz esta viagem todos
os fins de semana. Sai do norte de Portugal no sábado de manhã com o camião carregado de
pescado a caminho duma cidade do norte de Itália onde chega no Domingo à noite. (Não digo
o nome da cidade porque não sou denunciante). Aí esperam-no os que recebem o pescado e o
vão distribuir pelos supermercados da organização na cidade e arredores, de tal maneira que
esteja nos balcões na 2ª feira de manhã.
Quer dizer, o peixe vem lá de Marrocos ou da Mauritânia para os frigoríficos no norte de
Portugal e daí vai para a Itália. Só esta volta duplica o preço do pescado. É por isso que o
pescador ganha pouco e o consumidor paga muito.
- Afinal o gasóleo em Itália ainda é mais caro do que em França, arriscámos, para continuar a
conversa.
- Ah pois, na Itália é mais caro e na Eslovénia ainda mais (por acaso depois verificámos que
não) - mas vocês precisam de gasóleo?
-Não, temos meio depósito. Podíamos era ter atestado em França.
-Mas eu posso fornecer gasóleo mais barato do que em França...
Ficámos a saber que o camião TIR tem dois depósitos, perfazendo 1500 l, e que gasta 35 litros
por cada 100 Km. Em cada viagem destas gasta cerca de 1400 litros.
- Posso vender o gasóleo a 1,1 E. Quantos litros é que vocês querem?
- É um bom preço. Com uns 60 litros atestamos o depósito da carrinha e mais uma vasilha
suplente de 20 litros que trazemos.
Negócio feito. O homem trazia a mangueira que certamente já serviu em outras transações,
fez a transfega e recebeu o que se tinha combinado.
Enquanto discretamente se fez a operação foi dizendo que o patrão não dava por nada. Até
parece que este camião gasta mais que os outros...mas ele sabe bem que aos domingos no
verão há aqui sempre engarrafamentos...
- E no inverno há neve nos Pirinéus, acrescentei.
- Pois, pode sempre acontecer qualquer coisa em qualquer parte.
(entendi-te…)
Entretanto o engarrafamento já aliviara e até a final do Euro já tinha um golo. Deu para ver na
TV doutro camião ali ao lado.
O homem pôs o camião na estrada e seguiu o seu caminho. Já tinha avisado que estava
atrasado e só ia chegar lá pelas 3 h da manhã.
Cá por mim fiquei a pensar: se isto fosse a tribunal, eu era considerado cúmplice, receptador
e beneficiário do roubo...Mas como “quem rouba a ladrão tem cem anos de perdão”, podia
muito bem ter arrancado sem pagar o gasóleo e ficava mais que perdoado.
E vá lá a gente tentar conciliar a sabedoria dos juízes com a sabedoria do povo.

A Nogueira

Poupar no gasóleo, sempre que possível.
Esta reserva que o Ricardo está a usar custou na Rússia a 0,50€ por litro.
Se todo o gasóleo que gastámos fosse a este preço daria para ir à China e voltar!