terça-feira, 2 de outubro de 2012

As neves do Kilimanjaro. Parte2/3


Do bordo da cratera avista-se o imponente Uhuru  Peak (pico da liberdade em Suaíli), o ponto mais elevado de África. Até lá acima um valente esticão a 5000m com o vento a azotar... mas com umas paisagens incríveis por entre as neves eternas do Kilimanjaro. Eternas até que os câmbios climáticos se encarreguem de as extinguir... acho que o Kilimanjaro agora já não tem glaciares, derreteram!



A equipa completa ao nascer do sol.





No dia 31 de Dezembro de 1995, a meio da manhã estavamos no tecto de África. 5895m Com uma temperatura de -20ºc e uma enorme emoção!
A primeira parte da viagem estava a terminar e agora sim podia dirigir todas as minhas forças para o objectivo da viagem: Mt. Quénia.



Num ápice, o bordo da cratera e o Uhuru Peak com o seu característico chapéu de nuvens, ficaram para trás. Na mesma jornada  em que saímos dos 4500m até quase aos 6000m  viemos dormir aos 3000m com uma overdose de oxigénio depois da rarefacção do pico! O dia do cume deu direito a alguns enjoos devidos à altitude, mas nada de mais. Há quem aqui tenha vindo morrer de edema pulmonar!

Às sete da tarde caímos nos sacos cama, acho que nem se montaram tendas, só acordamos na manhã seguinte, 1 de Janeiro de 2006. A passagem de ano foi a roncar.






Passados uns dias do Kilimanjaro, o grupo separou-se, tínhamos objectivos diferentes. A maior parte foi fazer um safari no Serengueti e eu e a amiga Paula Ferreira fomos para o Monte Quénia, escalar mais a sério.
Autocarro  até Nairobi e depois num táxi colectivo até perto da montanha. As distâncias em África são sempre gigantes, cada viagem é um épico. A Paula negociava tudo até ao fim, tinha sempre truques na manga e nunca se dava por vencida. Recordo um qualquer transporte que demorou um tempão a negociar, depois de tudo acertado, entramos no carro, era uma Peugeot 505, não cabia nem mais um ovo! entre gente e bagagens, eu tinha uma mulher ao meu colo... O condutor vira-se para trás e diz à Paula que tinha que pagar mais não sei quê por  causa das bagagens. A Paula de imediato sai do carro e começa a tirar as nossas mochilas e a dizer que íamos procurar outro transporte. O condutor dá-se por vencido e manda-a entrar garantindo que não cobraria mais nada... 

Masai (foto roubada da net)



A viagem entre o Kilimanjaro e o Mt. Quénia foi espectacular, viamos muitos animais pelo caminho, zebras, girafas, gazelas, parecia um safari. Na fronteira entre a Tanzânia e o Quénia tivemos de mudar de autocarro com as mochilas às costas. Os Masai  vinham ter connosco para nos vender o seu artesanato. Foi também um festival de carimbos no passaporte, na dança dos guichés.






Desporto favorito dos africanos, ver...
Dormimos uma noite numa pensão perto do parque nacional do Mt Quénia, contratamos um carregador e transporte, deixamos algumas coisas que não íamos precisar na montanha e lá fomos nós.

Fizemos uma jornada de jipe e depois dois dias a pé até ao sopé da montanha.




O Parque é muito bonito e cheio de vida. É muito menos frequentado que o Kilimanjaro.

A montanha só aparecia por entre as nuvens de vez enquanto.

Há muitas marmotas, são parecidas com um coelho mas maiores e com ar mais estúpido...





Ficamos num refúgio uma noite, depois montamos tenda perto do início da escalada e descansamos umas horas. Por volta da meia noite acordamos, comemos e arrumamos o que faltava e à uma da manhã estávamos a escalar.





A via que escolhemos foi a Ice Window, uma ténue linha de gelo com 500m de recorrido e a culminar no gate of the mists o colo entre os dois picos desta montanha, o Batian (5199m) à esquerda  e o Nelian (5188) à direita.


A mais famosa e mítica das vias,  Diamond coloir, estava com más condições de gelo e na realidade, como diz o nosso governo, um pouco acima das nossas possibilidades... a Ice Window fica ligeiramente ao lado direito do Diamond coloir e tinha exactamente as nossas medidas em termos de dificuldade. O gelo era de excelente qualidade, as temperaturas muito agradáveis, a paisagem incrivelmente bela, o ar cristalino. O dia passou a correr... foi a mais magnífica sensação de escalar uma bela linha de gelo a 0º 9` de latitude a Sul da linha do equador.

Foi como um sonho, os pitons a enroscar no gelo protegendo as reuniões, os largos eram protegidos ora na rocha ora no gelo. Os piolets e os crampons trabalharam todo o dia de forma maravilhosa. Só quem escala consegue compreender o que digo :) fantástico! dos melhores dias de escalada que tive na minha vida.

Paula leading.


Grande sorriso de felicidade a caminho das estrelas do céu!!

Continua...

P.S. As fotos estão horríveis porque o scanner de slides não dá para mais. No original as cores são fantásticas...