domingo, 14 de outubro de 2012

As neves do Kilimanjaro. Parte3/3

O sol a dar o arzinho da sua graça! Quem escala em gelo não gosta muito do sol, mas aqui ele não chegou a fazer estragos.





Uma vista para o enfurecido e empinado Diamond Coloir. 


Atrás de mim o largo mais vertical da via. Espectacular!!
90º gelo azul.



O largo termina debaixo de uma cornija  de gelo. Para sair da cornija há que partir umas estalactites de gelo  e sair por uma janela (Ice Window) ao encontro do Diamond Coloir.

Lindo! como um sonho ☺

@ gate of the mists. Fim da via.

Neste local era escolher, Batian ou Nelian. Escolhemos Nelian 11 metros mais baixo que o vizinho, mas com uma cabaninha para passar a noite. Não tinhamos previsto passar a noite na montanha mas alguns atrasos durante o dia e principalmente na noite anterior, enquanto procurávamos na escuridão o início da nossa via, fizeram com que a noite nos apanhasse desprevenidos no topo da montanha... nada a fazer senão aguentar uma gélida noite a 5200m só com a roupa que tínhamos vestida, sem tenda, sem sacos cama... descer na escuridão estava fora de questão, seria demasiado perigoso. Assim resignados, descalçamos os crampons e escalamos o último largo de IVº grau em rocha, que com botas de plástico, luvas e a 5000m valia aí um 7b+, principalmente penoso para a minha companheira que teve de ser puxada de cima ☺


 Nelian 5188m. Já noite escura.
Paula, tens as calças rotas no joelho. lol

Comemos os chocolates que tínhamos no bolso, deixando um ou dois para o dia seguinte e fomos para a casita tremer de frio. Meti a mão à mochila e na minha pequena farmácia tinha comprimidos para dormir, tomei um e ressonei a noite toda. A Paula que não quis tomar é que teve de se aguentar... eu dormi bastante bem. Mais tarde quando contei aos meus amigos mais entendidos o que tinha feito, fui muito criticado, em situações extremas devemo-nos manter acordados para combater o frio. Tomar um comprimido para dormir é passaporte para já não acordar... enfim, ninguém morre de frio no equador, lá me safei para contar a história.

A gélida casinha de alumínio onde passamos a noite.


A manhã acordou maravilhosamente limpa com uma visibilidade incrível. Tínhamos toda a África aos nossos pés. Os primeiros raios de sol ajudaram a desentorpecer os músculos doridos da véspera.


O enorme vale glaciar por baixo de nós. Uma das pintinhas amarelas no centro da foto é a nossa tenda.

O dia passou-se em intermináveis rappeis. Paula, assim é que rompes as calças...


A montanha tinha uma excelente linha de rappeis em parabolts com argolas. Logo no primeiro ou segundo rappel, uma distracção ou o cansaço da noite e da véspera, fez-nos perder da linha de rappeis e tivemos de rappelar tudo em pontos precários de fitas, pitons e entaladores... no último dos rappeis, quando chegamos ao chão, as cordas engataram-se ao puxar e não conseguimos recuperá-las, já não sobravam forças... Perdi 100m de corda :(


A base da via.
O nosso amigo carregador esperava-nos no refúgio, depois de ter subido a desmontar a nossa tenda. Dormimos, comemos, lambemos as feridas, contamos as histórias... Metemos as mochilas às costas e continuamos viagem rumo à "civilização", numa busca desesperada por um duche que já não tomávamos desde o Kilimanjaro!!

Mt Quénia, face sul. A linha de gelo vertical é o Diamond Coloir. A nossa linha é a mais ténue à direita e na diagonal.  Onde as duas linhas se encontram fica a cornija com a Ice Window, o colo entre os dois picos é o  gate of the mists.
O Nelian com a casinha de alumínio é o pico da direita.


Bye-bye montanhas de África, vou à procura de um duche.



Hotel Ambassador!! 5 *

Transportes até Nairobi, quando chegamos, telefonamos a uns amigos que tínhamos feito no Kili, eram duas irmãs e um irmão mais velho, muito simpáticos, que estiveram na montanha ao mesmo tempo que nós. Eram indianos mas viviam em Nairobi. Resgataram-nos da confusão do terminal de transportes da capital e ofereceram-nos um magnifico jantar indiano... eu só sonhava com um bitoque com batatas fritas, mas claro, eles eram vegetarianos e carregavam no picante... duche também não deu... enfim lavamos as mãos e a cara, já não é mau. Depois do jantar, adeus amigos, muito obrigado, se forem a Portugal já sabem... e zumba! autocarro outra vez. Ao romper do dia seguinte estávamos em Mombaça. Quando me despejaram do autocarro deitei-me no chão encostado às mochilas e disse à Paula - não saio daqui, deixa-me dormir... Quando dei por mim estava deitado na caixa de uma carrinha com as mochilas à minha volta e a atravessar a cidade em grande velocidade. A Paula ia na cabine em grande algazarra com o condutor, pareciam conhecer-se há que tempos! Fomos para um hotel maravilhoso, com torneiras a sério que deitavam uma água maravilhosa! pelo caminho, a Paula ainda fez o condutor parar em vários sítios!? um deles era uma agência de viagem para a viagem seguinte...


Forte quinhentista Português em Mombaça.


As primeiras vistas para o Índico.

Em Mombaça deu para descansar, tomar um bom banho, passear, comprar souvenires, jantamos num hotel todo colonial, grande sala com o chão em tacos de madeira, mobiliário em palhinha, ventoinhas no tecto, empregados de luva branca. Parecia o filme "África minha".
Ainda visitamos uma portuguesa residente, que tinha lá negócios e que a Paula desencantou o contacto, íamos na esperança de um convite para jantar... mas não tivemos sorte.
Dali, apanhamos um aviãozinho para Zanzibar onde nos esperavam os nossos amigos.
Zanzibar foi a ilha que deu o nome aquelas magnificas cafeteiras de café, mas não  tem nada a ver!
Tínhamos previamente combinado um sítio para que quem chegasse primeiro deixa-se uma mensagem a dizer em que hotel estava. A vida sem telemóveis tinha  destas coisas...


Stone Town, Zanzibar.





Uma pequena tartaruga de 500 kg.

Acho que nem deu por mim...


Um antigo forte negreiro numa ilhota perto.


Lá nos reencontramos todos para contar as aventuras.

Zanzibar é uma ilha muito bonita e interessante, tem algumas fortificações Portuguesas, aqui cultivam-se muitas especiarias e há muitas e variadas frutas tropicais. Ao fim da tarde a praça principal de Stone Town enchia-se de gente com vontade de respirar um pouco de ar fresco,  havia muitos vendedores ambulantes, recordo umas espetadinhas de carne assadas na brasa que eram um espectáculo e um pequeno engenho  de cana de açúcar que escoria o liquido doce para dentro de um copo de gelo ☺
Também fizemos snorkeling em belos recifes de coral.
  

Plantação de algas, pelo que percebi são plantadas, amarradas a cordéis, na maré  baixa e são apanhadas na maré seguinte.




De Zanzibar fomos todos de ferry-boat novamente para Dar-es-Salaam e daí para casa. Voltei ao trabalho e à escola, fazia trabalhos verticais durante o dia e estudava à noite, no tempo livre escalava tudo o que podia. Na escola perguntavam-me porque tinha faltado tanto tempo e porque vinha tão queimado, era Fevereiro. Eu respondia, -fui à Serra da Estrela e queimei-me na neve!



Hakuna Matata!
Fim da história!


P.S. As fotos estão horríveis porque o scanner de slides não dá para mais. No original as cores são fantásticas...